SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 11:25

“Golden Gate” e Tachos Dourados

Sempre ouvimos dizer que o caminho do inferno está pavimentado com boas intenções, sobretudo no que toca aos politiqueiros que se governam à nossa custa. É fácil verificar que a administração central e as autarquias continuam a gastar como se Portugal não estivesse falido. Os governantes deste país parecem pilotos que se esqueceram que o avião não voa sem gasolina.

Ainda há pouco, circulou na internet uma lista de “observatórios” que duplicam ou triplicam o que já se faz ou devia fazer noutras instâncias governamentais. Na maioria dos casos, não observam nada. Tal como as parcerias público-privadas , os institutos e o impressionante número de fundações, só servem para transferir o dinheiro dos contribuintes para as bolsas da casta e seus amigos, camaradas, afilhados, familiares, sócios e outros capangas. Compreende-se, visto que o “centrão” precisa de encontrar tachos para toda esta gentinha e, por isso, se recusa fazer cortes no despesismo estatal.

Olvidemos, de momento, a multiplicação de PPPs, institutos e fundações, e constatemos como se torna extenuante inventariar APENAS uma porção de Observatórios.

Com esse objetivo, decidimos partilhar com os leitores uma amostra: medicamentos e produtos da saúde, nacional de saúde, sistemas de saúde, ordenamento do território, assuntos da família, permanente da juventude, droga e toxicodependência, geopolítico das drogas, igualdade de oportunidades, imprensa, ciências e ensino superior, estudantes do ensino superior, qualidade em serviços de informação e conhecimento, local da Guarda, inserção profissional, emprego e formação profissional, recursos humanos, permanente do ensino secundário, permanente da justiça, estatístico de Oeiras, neologia do português, criminalidade organizada e terrorismo, desenvolvimento do Alentejo, sociedade de informação, inovação e conhecimento, qualidade em serviços de informação e conhecimento, regiões em reestruturação, festas e património, apoios educativos, endividamento dos consumidores, sul europeu, europeu das relações profissionais, transfronteiriço Espanha-Portugal, europeu do racismo e xenofobia, virtual da astrofísica, nacional dos sistemas multimunicipais e municipais, políticas de educação e de contextos educativos, ibérico do acompanhamento do problema da degradação dos povoamentos de sobreiro e azinheira, tarifários das telecomunicações, qualidade, literatura e literacia, inteligência económica, competitividade e qualidade de vida, ciências do 1º ciclo, nacional da dança, língua portuguesa, entradas na vida activa, permanente das organizações escolares, solar e heliosférico, segurança nas profissões, comunicação local, jornalismo electrónico e multimédia, urbano do eixo atlântico, robótico, permanente da segurança do Porto, centro de pensamento de política internacional, ambiental de teledeteção atmosférica e comunicações aeroespaciais, restauração, reumatologia, censura, economia mundial, mercado de arroz, neologismos do português europeu, educação sexual, reabilitação urbana, gestão de áreas protegidas, doenças reumáticas, habitação, magnético de Coimbra,  cultura da Universidade de Coimbra, mulheres assassinadas, contratação pública, luta contra a pobreza na cidade de Lisboa, trajetos dos estudantes do ensino secundário,  fiscalidade, segurança humana, tráfico de seres humanos, sobreiro e cortiça, obras públicas, recursos educativos, desigualdades, prospectiva na engenharia e tecnologia, fraude, etc. É de perder o fôlego!

Se não fosse a irritação causada pelo nacional-tachismo evidenciado nesta listagem, hoje teríamos tido por tema as pontes, que podem servir de caminho para saída ou entrada de ideias e soluções. A metáfora talvez resultasse. E, admitindo que tal aconteça, arriscamos uma referência a duas bem conhecidas dos leitores.

Em primeiro lugar, a “Golden Gate” que associamos à Califórnia do ouro, das cornucópias agrícolas e dos sonhos de sucessivas gerações. Revimo-la em abril. Em conversa com o colega que nos conduziu ao aeroporto, ficámos a saber que este ex-líbris de São Francisco festejava o 75° aniversário.

Mark Twain escreveu que esta cidade tinha três estações: inverno, verão e nevoeiro. E só quem viu o topo das torres como que a flutuarem por cima da neblina concordará com ele. Na verdade, a bruma matinal constitui um dos sortilégios que fascinam os visitantes.

É realmente uma obra grande. O comprimento dos fios, nos dois cabos de aço, que suportam os tabuleiros daria para efectuar três voltas ao mundo. A construção durou quatro anos e foi reforçada para resistir aos ventos e correntes do oceano. Quiçá aos sismos que flagelam a região. Com 2,7 Km, é uma das pontes suspensas mais longas do planeta e custou, em 1937, 35 milhões de dólares. Os carros pagam $5 para a atravessarem, mas unicamente quando circulam na direção norte-sul, ou seja para entrarem na cidade.

A “Golden Gate” tem uma prima alfacinha: a ex-Ponte Salazar, agora chamada de 25 de abril. Tal como a americana, também foi construída dentro do prazo e não excedeu o orçamento inicial. Nem foi criado um Observatório. Tudo ao contrário do que quase sempre acontece com as obras públicas pós-“Revolução”.

Ninguém enriqueceu à pressa. Não se pagaram luvas a figurões destituídos de dignidade. E “o Ministro das Obras Públicas da altura, quando saiu do governo, não foi para presidente do conselho de administração da empresa da ponte”.

Salta à vista a parecença no design, pois ambas foram edificadas pela mesma companhia:  US Steel.  Nem as dimensões diferem muito: 2,7 e 2,23 Km.

Até aqui tudo bem. A disparidade está na gestão. Antes de 1973, a lisboeta era administrada pelo Gabinete da Ponte sobre o Tejo e, a partir de 1995, pela Junta Autónoma de Estradas. Em 1996, a exploração e conservação passaram para a Lusoponte, a concessionária da Vasco da Gama. É sabido o arrombo que o Estado levou com decisões deste quilate.

Se não é indiscrição, de quem será a culpa? As opiniões divergem. Para uns, é dos capitalistas americanos e britânicos; para outros, da Alemanha. Talvez do PCP, do BE, do Benfica ou mesmo do tareco da vizinha. Ah! E não desculpemos a Troika.

Palavreado não falta. O que Portugal necessita é de um poder judicial que cumpra os seus deveres.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados