SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 01:14

Filadélfia, berço dos EUA

Há algumas décadas, visitámos pela primeira vez esta metrópole da Costa Leste. Os residentes chamam-lhe Philly e já foi capital federal. Recordamos como eles se orgulhavam da sua importância na história dos Estados Unidos, pois aqui se tinham reunido Thomas Jefferson, John Adams, Benjamin Franklin e outros “founding fathers” para assinar a Declaração da Independência. A data da nascença do bebé ficou célebre: 4 de julho de 1776.

Destes pioneiros, o mais citado é Benjamin Franklin. Lembramos um livro da nossa juventude, da colecção de biografias da Livraria Civilização, dedicado a este homem extraordinário que foi um dos signatários do Tratado da Independência (1776) e da Constituição (1787); um autêntico génio nos campos da invenção científica, diplomacia, música, jornalismo, política, gastronomia, etc.. Ao ouvir este nome, associamo-lo de imediato aos pára-raios, ao estabelecimento das primeiras bibliotecas públicas, à criação das brigadas de bombeiros voluntários e à fundação da Universidade da Pensilvânia.

No período pós-guerra, as mecas do turismo americano foram São Francisco na década de 1960, Miami nos anos 80 e Seattle nos 90. Na atualidade, o poder político ainda se situa em Washington e as finanças em Nova Iorque. Boston rivaliza em atrações históricas e Chicago na economia. Nesta linha, Filadélfia é difícil de qualificar. Uma urbe de tipo “allegro ma non troppo”, que continua a ser um padrão nacional. Quanto mais não seja por causa da riqueza simbólica. Estamos a pensar no Independence National Historical Park, onde está acumulada mais história por metro quadrado do que em qualquer outro sítio. E logo no meio da cidade.

É verdade que os habitantes de origem europeia (sobretudo germânica, inglesa, italiana e irlandesa) “fugiram” para a periferia. De qualquer forma, se à população dos arredores for adicionada a da cidade “per se”, vivem perto de sete milhões de pessoas neste aglomerado urbano. Quiçá a quinta cidade mais populosa do país. Mesmo assim, há quem diga que é “a maior vila da América do Norte” por causa do estilo de vida pacato. Haverá, porém, quem não partilhe esta opinião.

Apesar da presença dos habituais arranha-céus, há de facto ruas e travessas pavimentadas com pedras, sendo o centro bastante fascinante devido à integração do contemporâneo com o antigo. Por um lado, o Independence Hall, o Liberty Bell Center, as moradias com mais de dois séculos; por outro, um número incrível de teatros na Avenue of the Arts, os hotéis modernos, os excelentes museus (Rodin, Philadelphia Museum of Art, Edgar Allen Poe House, Institute of Contemporary Art) e o Masonic Temple – que mais parece uma catedral.

Tal como em Boston ou Nova Iorque, também aqui há adeptos ferrenhos das equipas locais de basebol, futebol e hóquei. É com saudade que relembramos a tarde em que o nosso professor de História, Mr. Keith Casteluccio, nos levou ao duelo entre dois titãs do basebol: os “Reds” de Cincinnati e os “Phillies” de Filadélfia. Esquecemos por completo o nome do “catcher” dos Phillies que era então uma celebridade. Ou seria o “pitcher”? Talvez o “batsman”. A distância no tempo não ajuda. Nem o facto do basebol não ser uma prioridade para o autor destas linhas.

Além de ter tentado ensinar-nos as regras deste desporto, foi com este pedagogo de gabarito que tivemos agradabilíssimas conversas sobre os “Pennsylvania Dutch”, um dos numerosos grupos étnicos do mosaico americano. Vestem-se diferentemente, vivem em comunidades fechadas, só utilizam charretes puxadas a cavalos, fabricam mobília de estilo próprio, ainda rezam em alemão, e não utilizam energia elétrica.

Têm uma estória interessante e complicada. Depois da Reforma luterana, surgiram diversas seitas no seio do protestantismo. Uma delas foi criada, em 1506, por Menno Simons, ex-padre católico holandês. Os seus seguidores foram chamados mennonistas e ainda hoje existem vibrantes colectividades com esta denominação nos Estados Unidos, Canadá, Bolívia, Argentina e América Central. A seu turno, os menonistas deram origem aos amish. Como utilizavam a língua alemã (deutsch) os vizinhos começaram a chamar-lhes “dutch” (holandeses), se bem que não tivessem nada a ver com o país das tulipas, mas sim com a Alsácia de Jakob Amman.

Além de Filadélfia, e até certo ponto Gettysburg, o condado de Lancaster e a população amish constituem as principais atrações do Estado da Pensilvânia. Também incluiríamos nessa constelação os pretzels (espécie de biscoitos salgados em forma de nó) e a vila de Hershey, que produz toneladas de chocolates.

Se por ventura visitar Nova Iorque, não perca a oportunidade de dar um salto até ao sudeste da Pensilvânia. Para admirar a “Quaker City” do amor fraterno, como dizia William Penn, o lugar onde nasceu o que viria a ser uma das maiores democracias da história universal.

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