SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:26

D. Mário dixit: “O Estado é que vai pagar”

Numa “república” que prima pela facilidade com que a casta dirigente beneficia descaradamente de tudo e de todos, onde o fado dos outros cidadãos é pagar mais e receber menos, seria oportuno reflectir sobre ocorrências que revelam como esta gente pensa. Há semanas, foi o caso do presidente da câmara que enviou uma carta de intimidação a um munícipe que tentou informar-se sobre a utilização de bens públicos. Hoje, relemos a seguinte notícia.

“O antigo presidente da República, Mário Soares, foi ontem apanhado pelo radar do Destacamento de Trânsito de Leiria da GNR a circular a 199 km/hora na A8. Soares era conduzido pelo motorista, numa viatura oficial. Os agentes da GNR apreenderam a carta do motorista porque perante a opção de pagar 300 euros de multa, logo na altura, ou o condutor ficar com a carta apreendida, Mário Soares afirmou: ‘O Estado é que vai pagar a multa’. O veículo, em nome da Direção-Geral do Tesouro e das Finanças foi mandado parar na área de serviço da zona de Leiria e, quando os guardas se aproximaram, Mário Soares terá sido “bastante mal educado” (“DN” 4.4.2012).

Infindável e repreensível é a arrogância do ex-chefe de Estado e também antigo primeiro-ministro que, por duas vezes, se viu forçado a recorrer ao Fundo Monetário Internacional para evitar a bancarrota do país. De facto, sempre se sentiu acima do comum dos mortais. Mais do que isso, como se percebe na leitura do livro “Contos Proibidos”, de Rui Mateus, publicado em 1996 e logo desaparecido misteriosamente do mercado. Está disponível no blogue “Elucubrativo” (10.Fev.2012) e expõe facetas pouco conhecidas do célebre “roubolucionário”.

Esta figura de proa da partidocracia portuguesa tem dado amplas provas de abuso do poder e de como pensa que os contribuintes lhe devem reverência. É o modelo perfeito do político autocrático e intolerante. Não aceita ser criticado. Vê-se como um grande democrata, mas no fundo é um hipócrita. Para infelicidade nossa, houve clonagens deste vírus e o resultado está bem à vista. Tanto em Lisboa como em qualquer canto do rectângulo lusitano, não faltam sobas desta espécie. Abominam a transparência. Só são democratas se forem eles a dar ordens.

Fala-se bastante das imposições da Troika e dos sacrifícios em nome da austeridade. A precaridade aumenta e os bolsos dos cidadãos estão a arder. No entanto, prossegue o forrobodó. Governantes, ex-governantes e outros membros da casta escravizadora continuam com a barriguinha vitaliciamente cheia.

De maneira subreptícia, a ditadura impôs-se. São mais que evidentes as manipulações dos espertalhões do costume, coadjuvados pelos mídia nacionais e locais à custa do erário público. E é violenta a reação a qualquer legítimo questionamento. Que disparate!

A luta pela transparência e pela imputabilidade deve constituir o alfa e o ómega da ação cívica dos portugueses. Isto em nome da cidadania e não só porque temos o direito de exigir contas aos maus gestores. A casta que nos levou a esta bandalheira tem de ser responsabilizada, pois seguirão fazendo o mesmo. Diga-se-lhes o que são: impostores, tratantes e criminosos.

Num Estado de direito verdadeiro, ter-se-ia investigado de imediato o porquê da utilização de uma viatura da Direção Geral do Tesouro e Finanças para viagens de um ex-presidente. Será que esta triste figura da história contemporânea ainda não está satisfeita com o que tem sugado e continua a sugar aos contribuintes?

Se as raízes da democracia estão de tal forma podres, como é que a árvore pode ser saudável? É um verdadeiro Janus, mais um com duas faces. Compete ao governo averiguar se “sua majestade” tem direito à utilização de veículo à conta desta Direção Geral, cujas actividades estão em parte divulgadas na internet. Começámos pelo sítio “Despesa Pública”. Vale a pena consultar.

Numa das conhecidas músicas do José Afonso, ele já dizia: “Os barões da vida boa //  Vão de manobra em manobra // Visitar as capelinhas // Vender pomada da cobra // A palavra socialismo // Como está hoje mudada // De colarinho à Texas // Sempre muito aperaltada”.

É tempo de dizer BASTA! Desistam de nos levar o couro e o cabelo. Não cortem nas pensões dos idosos, nem nos salários de quem trabalha. Tenham vergonha.

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