SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 02:44

México Lindo, México Feio

Por uma variedade de motivos, efectuámos diversas viagens ao México. Numa ocasião, o país estava em festa. Uns dias em que ricos e pobres, adultos e crianças, se divertiam à grande e…à mexicana. Para os mais miúdos, a alegria das distrações, as luzes, a animação e as guloseimas apinhadas de açúcar. Para os graúdos, uma oportunidade para esquecer a luta diária pela sobrevivência.

Num passado recente, ao que parecia, o México iria ser como os outros parceiros da NAFTA (Mercado Comum, em versão “light”): o Canadá e os Estados Unidos. A nação a sul do Rio Grande estava a entrar nos eixos. No mínimo, os dados estatísticos levavam a essa conclusão. No entanto, a recessão económica, o tráfego das drogas e o desmesurado nível de corrupção mataram o sonho. Já há quem afirme que as instituições estaduais deixaram de funcionar e que impera o “salve-se quem puder”.

Além do Distrito Federal e da capital, uma das aglomerações urbanas mais populosas do planeta, os estados onde passámos mais tempo foram Quintana Roo e Campeche, junto à Guatemala e Belize; Baja Califórnia, Tamaulipas e Nuevo León, próximos da fronteira americana; Guanajuato e San Luis Potosí, no interior.

É impossível percorrer este país sem guardar recordações para o resto da vida. Recordamos as seguintes. Uma barata castanha listrada de amarelado, seis ou sete centímetros de tamanho, que ficou entalada entre a parede e a porta do chuveiro. Para não a esborrachar, borrifámo-la de spray desodorizante e, para espanto nosso, foi logo desta para melhor.

Com muita prudência no que toca a cozinhas tropicais, temos por hábito evitar saladas, ovos, gelo, lacticínios e, na América Latina, tudo o que se aparenta a tacos e é servido nas locandas populares. Nem a barulhenta música dos “mariachis” afasta os vírus e bactérias. Não menos cautela é indispensável com o dinheiro. Embora os gangues do Leste da Europa ainda não tenham descoberto estas paragens, os assaltos são o pão nosso de cada dia para qualquer turista.

É tabu falar de gatunos, carteiristas e outros peritos em destrezas do gamanço. De facto os mexicanos conseguem superar os franceses no que diz respeito a vaidade nacional. Aqui, tudo é maior e melhor: vulcões em abundância, pirâmides superiores às do Egito, praias fabulosas, civilizações multiseculares. E até há igrejas com santos de que poucos leitores ouviram falar: Tranquilino, Quirino, Estolano, Pedro Arbues, Atilano, Lourenço Levita.

Mas sigamos adiante nas revelações museológicas de que existem bons exemplos no Templo Mayor. Lado a lado, Mictantecuhtli e um Guerreiro-Águia. As duas estátuas astecas, de dois metros de altura, estão banhadas numa luminosidade quente de tom ocre. Mictlantecuhtli parece saudar o visitante com a vivacidade sorridente de um velho anfitrião, enquanto o guerreiro-águia, de asas abertas, faz lembrar o Ícaro da Grécia clássica.

Por estas salas passam milhares de turistas e deve ser raro não ficarem chocados ao depararem com a explicação associada a outra estátua, a de Xipe Totec: “Deus principal da solenidade conhecida por Tlacaxipehualiztli. Nesta cerimónia, realizavam-se ritos nos quais eram arrancados aos sacrificados ainda vivos não só o coração, o que era comum neste culto, mas também a pele.

Tampouco ajuda a descrição no altar da imolação: “a vítima era retida violentamente enquanto cinco sacerdotes agarravam os membros e a cabeça e um outro introduzia a faca por baixo das costelas, facilitando assim a extração do coração”.

Alguns festejos contemporâneos revivem as épocas pré-colombianas e coloniais. As alegorias são alucinantes, mesmo prazenteiras. Tiram-nos do universo cruel da religião asteca e aproximam-nos da existência quotidiana.

Na sala ao lado, sentimos que estamos bastante longe da sanguinolência dos astecas. A sensação é outra, quando admiramos os seus pratos, taças e jóias, que poderiam ser reusadas na atualidade. Algumas dessas jóias assemelham-se àquelas que os estrangeiros compram nas lojas de artesanato.

Talvez sofram de nacionalismo exagerado, porém não é menos verdade que é fácil encontrar, em qualquer cidade ou vilória, ótimos museus, galerias, murais, arte pré-colombiana e arquitectura colonial. Na realidade, é rara esta complexidade cultural.

O país é humanamente rico, bem abonado em templos, ruínas, monumentos, igrejas, praças, palácios e arqueologia. Um mundo à parte, com milhares de festivais religiosos, comemorações políticas, gastronomia ímpar e imensas oportunidades de fazer compras em burgos com ruas cheias de vendedores ambulantes.

Por outro lado, também é uma nação onde sobram problemas financeiros, iniquidades sociais, corrupção, poluição e criminalidade. Um autêntico caos, mesmo para quem nasceu no sul da Europa.

No México, a qualquer hora do dia, todos os dias, há sempre alguma complicação. É assim a pátria do Cantinflas, com quem os portugueses tanto se identificavam nas décadas de cinquenta e sessenta.

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