SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:01

Meninos da escola com avental…da cozinha

Anda tudo desequilibrado em Portugal. Até o clima. E por causas das temperaturas se manterem acima do normal, em 2012, será em maio que se realizará o tradicional encontro dos ex-alunos dos professores Silva Paiva e Oliveira. Mais precisamente, no dia 13. Embora seja número de mau agoiro, também está associado aos “três pastorinhos” e simplifica a memorização da data.

Chegados à egrégia idade dos sessenta e tais, alguns condiscípulos começaram a organizar listas das actividades quotidianas e, quanto mais listas fazem, maior é o número das que se perdem. Se aparecem por milagre, logo se revelam todas misturadas.

Damos um exemplo pessoal. Devido à celeridade da vida contemporânea, usamos abreviações que originam alguma confusão cerebral. Quem consegue interpretar um Tel.D.? Ou Corr.s.?  Por isso, esquecemo-nos de telefonar ao dentista ou ir ao correio comprar selos. Em breve, faremos companhia a outros amigos que já iniciaram a fase da existência em que os mais descuidados “caiem da tripeça”.

Diga-se a verdade. Apesar de somarem cabelos brancos, indisposições e achaques, é reduzido o número de camaradas que se esquecem de participar nestes convívios. Pelo sim e pelo não, sugerimos que marquem este domingo na agenda. Na lista das prioridades.

Já ouvimos dizer que é na nostalgia que se condensa a felicidade. Que não se pode viver sem as reminiscências e as pessoas de um determinado passado. A evocação de uma “idade de ouro”, impossível de ressuscitar. Mesmo que esse antigamente nunca tenha existido tal como o pintam.

É o estado de alma que faz chorar de “morriña” os galegos, que desfaz a alma dos poetas eslavos, que levou os mozárabes ibéricos a escreverem “jarchas” e quase todos os portugueses a gostarem do fado. É o prazer da tristeza. Ou, então, não passa tudo de lamentações enfermiças. Quiçá piegas, um adjectivo que está na moda.

Esta malta, ao atingir a maturidade, ganhou tino e cada vez papagueia menos bazófias. Viram o mundo transformar-se e, quando pensavam ter redescoberto a vista após um período de escuridão, deram-se conta que as aparências mudam no entanto a geometria da vida mantém-se. Testemunharam felicidades efémeras, tristezas imprevistas, exclusões e preconceitos grosseiros. Para felicidade geral, todos se orgulham de jamais terem utilizado as instituições estatais como elevador social. Por outras palavras, ninguém os pode responsabilizar pela crise que o país atravessa.

Com ou sem saldo no banco, o aparelho estomacal segue dando horas para as refeições e, no dia da grande peregrinação, não será na Cova de Iria mas na torrejaníssima Praça 5 de Outubro que os antigos polidores de carteiras da Escola do Salvador, darão um abraço. A que horas? Às onze badaladas do sino de Santa Maria.

Por se tratar de uma “loja” de prestígio no concelho e arredores, o ágape ficará a cargo dos veneráveis “irmãos” Luis Ribeiro, Luciano Neves Correia e António Damásio, pois possuem dotes e méritos neste ramo. Contudo, consta que a cerimónia prandial será liderada pelo grão-mestre Diamantino Rosa que não prescindirá do respectivo avental, porém sem luvas brancas, esquadro e compasso. Nem sequer porá ao pescoço o colar da Suprema Ordem do Bebes-e-Comes.

Há muito que estes membros de tão delicada sociedade aprovaram nos testes exigidos e atingiram o grau de mestres pedreiros. Ou cozinheiros. Sabem muito sobre Sopa da Pedra e subscrevem os princípios desta equipa: verdade, fraternidade e bem-querer. Tudo em prol do que os “outros” denominam aperfeiçoamento humano. Na afectuosa tertúlia dos oliveirinhas e silva-paivanos  o objetivo limita-se à partilha de uma tarde agradável.

Desta feita, o anfitrião será o Luciano Neves Correia e a festa almoçarante realizar-se-á no seu Casal Garcia. No cardápio, talvez uma caldeirada à fragateira escoltada por tintos nacionais. Apenas para diminuir os níveis de colesterol mau.

Como sabemos, trata-se da prima menos abastada da clássica “bouillabaisse” do sul de França, onde além de tamboril, lulas, pescada e ruivo, entram igualmente lagosta, vieiras e ameijoas. A caldeirada portuguesa é menos pretensiosa mas, por causa das batatas, enche mais. Nem por isso é menos deliciosa. Para quem não for adepto deste prato, haverá sardinhas assadas e fêveras de porco na brasa.

Há mais de vinte anos que estes meninos se juntam. Sentem a falta de todos aqueles a quem deixaram de poder dar a bacalhoada da praxe. Serão recordados os nomes dos amigos Zeca Fragoso, Humberto, Rogério, José Carlos Vieira, Prazeres, Manuel Reis, Fernando Henriques dos Santos e Cotovio.

A vida forma-se e apaga-se como as bolas de sabão. É na busca do amanhã que reside a satisfação e a façanha, todavia é pela estima e pela amizade que se revive o passado.

Estes malteses nunca recusam um abraço e contam com a tua presença no dia 13 de maio!

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