SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:29

O Incómodo das Incertezas

Há semanas que nos escasseava o tempo para ler com a devida atenção a imprensa regional. Estes jornais retratam o que se passa na cena local. Pelo que divulgam e pelo que tentam encobrir. E ficámos estupefactos quando se noticiou que temos autarcas a vangloriarem-se de apenas lerem um jornal, desvalorizando com deselegância a existência de outros órgãos de comunicação comunitária. Tal negligência é grave, sobretudo se estiver baseada num fato evidente: nem todos lhes tecem os panegíricos a que crêem ter direito.

O “Jornal Torrejano” e “O Riachense” publicaram artigos de opinião que, considerados sob qualquer ângulo, merecem apreciação por parte dos munícipes. Ainda ontem, na página 7 do primeiro, deparámos com uma carta que nos fez pensar. Até no semanário “O Almonda”, sempre tão cauteloso, se pode ler que começaram as assobiadelas. Que também houve birra em Assentis. E, quando um jornalista faz uma pergunta sobre alhos, obteve-se uma resposta com bugalhos.

O tema é este: chegou a altura dos governantes entenderem que os excessos na conduta têm consequências. Por outras palavras, deviam ser mais comedidos. Os membros desta tipologia política necessitam de férias, porque o esgotamento é grande. Que não andam bem de saúde, não andam.

Qualquer pedagogo sabe que crianças criadas sem controlo acabam mal. Trata-se de uma questão de limites, da aprendizagem da linha que separa o que é “meu” do que é “teu”, o bem do mal, o conveniente do inconveniente.

Dentro de determinadas marcas, cada cidadão atua segundo os seus princípios. O que parece normal para uns, pode ser qualificado pelos eleitores-contribuintes como comportamento vergonhoso, totalmente inaceitável em democracia.

São raros os cidadãos adeptos do modelo social que os tem defraudado, cujos agentes os responsabilizam pelo que não funciona e que, em simultâneo, reservam para eles mesmos o princípio da “responsabilidade zero”.

Alguns governantes são como os helicópteros. Embora desligados do mundo real, continuam às voltas no ar, julgando que estão por cima de tudo e de todos. Depois, falta-lhes a gasolina. É assim a vida: ascensão e queda. Ícaro e Narciso. Se estes mitos são clássicos é porque refletem características sempre atuais dos seres humanos. É verdade que há indivíduos que não gostam de sair da ribalta, autêntica ou metafórica.

Mostraram com a sua conduta que quem não alinha com eles é afastado e quem se torna estorvo é esmagado. Estas e outras tolices são pagas pela comunidade, pois qualquer tipo de desgoverno assemelha-se às infiltrações de humidade num edifício. Com o tempo, acaba tudo em ruínas.

Já ninguém suporta ouvir mais contos da Carochinha. As posturas associadas a um cargo público têm repercussões enormes. Os eleitos devem ser avaliados não pelo que dizem, mas pelo que fazem. Por exemplo, a obsessão com as placas é, no mínimo, uma falta de modéstia. Também pode servir de compensação para alguma carência psicológica. Contudo, isso será outra estória.

De facto, sentem-se donos e senhores todos poderosos de coisas e loisas. Monarcas absolutos que não hesitam em intimidar quem não se deixa arrastar por falas enganadoras. Quando embirram, fazem beicinho e amuam. Convém no entanto recordar-lhes que não podem administrar a “casa” como se fosse propriedade pessoal. Ela é dos contribuintes. Lamentamos ter de o realçar, porém é assim mesmo.

Quem é eleito para um posto de gestão pública tem obrigação de utilizar o dinheiro e os bens coletivos com parcimónia. Infelizmente este princípio da democracia é esquecido com demasiada frequência.

Tudo isto é bastante estranho. Mau prenúncio ou o testemunho do muito que está para vir.

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