SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 20:32

Do Universal ao Particular, na Sequência de D. Policarpo

Não é fácil expressar a revolta que vai na alma dos portugueses, de mostrar como o funcionamento do país real nada tem a ver com as balelas preconizadas pelas castas dirigentes.

É verdade que nem todos se deixaram iludir, porém são legião os que se meteram na dança, pois há muito que os governantes lançam poeira nos olhos dos cidadãos. Por azar, também as instituições financeiras surfaram a onda e agora recusam-se a reconhecer que foram de uma irresponsabilidade de bradar aos céus.

A insustentabilidade económica e a ineficiência administrativa eram mais que evidentes. Estava-se mesmo a ver que sucessivos desgovernos, tanto em Lisboa como nas autarquias, andavam a pingar talento a conta-gotas.

Perto de casa: milhões de euros para os amigalhaços, mais uns largos milhares de empregos, no sector público, distribuídos entre familiares e membros do partido. Mais longe: negociatas na Líbia, na Venezuela, ou em micronações sem qualquer poder de compra.

Talvez uma rotunda dispensável na urbe desertificada ou promessas de hotéis-spas para as classes endinheiradas de lugares distantes. Obras sem controlo, viagens dispendiosas. Tudo bem pago com as contribuições opressivamente extorquidas ao Zé de Cinto-Apertado. Tendo à mistura slogans empolgantes, gritados para impressionar o camarada-modelo do despesismo e do calote. Porventura em prol do bem-estar comunitário. Sem dúvida, com benefícios pessoais.

Recorde-se que a crise da dívida soberana é um perigo existencial. Trata-se de saber até onde o estado falido pode permitir tanta falcatrua. Saliente-se que é esse o problema.

Se nos dermos ao cuidado de pensar a sério, sem filtros ideológicos nem considerações partidárias, entenderemos de imediato que a corrupção é insignificante nos países que não dependem da caridade internacional. Estamos a pensar na Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Áustria, Suíça, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, Luxemburgo, Austrália, Canadá, Singapura, Japão, Coreia do Sul e por aí adiante. Neles, a justiça funciona e não há tanta fantochada no circo político.

Sem mencionar nomes, em Portugal, o espaço político está repleto de finórios paradoxais, com ideias e apegos bastante extravagantes. A nível nacional ou local, todos conhecemos membros desta fauna com perturbações de carácter. Doidos varridos, como se dizia antigamente. Os seus temperamentos assemelham-se em tudo aos do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, como descritos por Robert Louis Stevenson (1850-1894) na célebre novela com os mesmos apelidos no título.

De facto, são numerosos os políticos lusos com personalidades duplas, que encarnam de igual modo as quimeras e as dificuldades. Com o tempo, revelaram-se grandes jogadores. Apostam sempre na cor premiada da roleta. Muda o ministro, mas a confraria está presente. Contudo, no fundo deles mesmos, andam dilacerados pela dúvida. Num futuro próximo, arrepender-se-ão da batota. Ou serão traídos pela adulação calculista.

Os eleitores que se deram ao trabalho de ir votar já compreenderam que existe uma erosão das fidelidades partidárias, um fosso enorme entre “elites” e povo. Quem passa pelo poder acaba com tachos rendosos.

É inexplicável como os portugueses aceitam a má gestão do país e dos municípios. Milhões resignaram-se, porque duvidam que exista cura para tamanha moléstia. Ah! Se os corruptos fossem julgados! Assistiríamos a um autêntico êxodo de chico-espertos a juntarem-se ao “inginheiro-filósofo” na região parisiense, enquanto outros apanhariam o primeiro avião para Cabo Verde ou Timor, onde têm amigos e “irmãos” da loja.

Como bem disse D. José Policarpo: “ninguém sai da política com as mãos limpas”. Sublinhe-se que estas palavras não foram proferidas pelo líder do PCP, muito menos por um trotskista. Foi o próprio Cardeal-Patriarca de Lisboa que assim se pronunciou.

Tal como os rios desaguam no mar, em Portugal, também quase todos os políticos acabam com os bolsos cheios. Na democracia de opereta, os eleitores podem barafustar. No entanto, isto é doença sem remédio e não será com doses cavalares de terapia troikiana que se solucionará a questão.

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