SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 08:56

O triunfo do que é efémero

O mundo contemporâneo habituou-nos a viver com o que é passageiro. Descarta-se tudo. Abandona-se o que não traz benefício pessoal ou não é do nosso interesse. Estamos tão acostumados ao que é transitório que deixámos de pensar no preço que muitas camadas da população pagam pela falsificada importância do que, ao fim e ao cabo, é apenas efémero.

Preferimos ignorar que  as promessas do marketing comercial ou politico! arrancam as raízes do espírito critico que fazem parte da dignidade humana. Submetem-nos, sem piedade, a uma podridão para a qual é difícil encontrar remédio. Este fenómeno, ao mesmo tempo, visível e secreto, corriqueiro e alucinante, é o tema do nosso novo livro que já saiu do prelo numa editora do Porto.

Com o objectivo de o redigir neste quadro de referência, associámo-nos ao Professor Jean Lapointe, nosso colaborador noutros projectos de investigação e, desta vez, também convidámos o Professor Nathan Young, um colega mais jovem. O título é La victoire de l’éphémère; vers une anthropologie du quotidien (A vitória do efémero; para uma antropologia do quotidiano).

Desde a fundação da antropologia, o conceito antropológico de cultura baseou-se num modelo de integração lógica de elementos dispersos. Nas sociedades tradicionais, esta inclusão parecia conformar-se à realidade. Dava sentido à vida. Mais tarde, verificou-se que muitos povos temiam hábitos diferentes dos seus, pois o que era estrangeiro constituía quase sempre uma ameaça.

A conformidade pode ser reconfortante. Oferece respostas para as questões existenciais. No entanto, a vida actual é caracterizada por elementos diferenciados e, por vezes, até contraditórios. Os antropólogos concebem agora a cultura como sendo um código formal mais do que um conteúdo coerente. De facto, constata-se que a hibridação das gentes favoreceu os empréstimos culturais que, por seu turno, se recombinaram em mosaicos de mutações permanentes e, até lá, imprevistas.

As transformações que qualificam a nossa época levam-nos a concluir que é impossível encontrar um modelo uniforme de comportamento. Os códigos culturais são bastante diferenciados, mesmo no interior de um dado grupo. Nota-se que existem diferenças, discussões e até dissidências sobre as diversas interpretações da realidade.

Todos nós temos testemunhado a aceleração da história na qual se combinam elementos antes separados. As alterações nas áreas das comunicações, da família e da ecologia, entre outras, impuseram esta preocupação com o efémero.

Este é o tema aqui estudado, numa perspectiva da antropologia cultural, e situa-se na época contemporânea. Com efeito, deixou-se de poder falar de uma só cultura mas sim de culturas. Elas coexistem num universo onde estão em vias de desaparecer diferenças que, até há pouco, as demarcavam. Este contexto determina os ajustes e os conflitos que ocorrem nas áreas examinadas pelos autores.

Devido a hibridação, a aceitação do “outro” tornou-se um pré-requisito da convivialidade. Embora atacada nalguns dos seus aspectos, a teoria do relativismo cultural converteu-se num dos alicerces da presente cosmovisão.

Falar de cultura leva sempre à consideração da influência de uns seres humanos sobre outros, embora não se possa ignorar a dimensão individual. Vivemos numa época onde impera o egoísmo. As pessoas consideram-se livres e aspiram a ter ainda mais liberdade. Contudo, as ambições próprias têm forçosamente de se enquadrar nas expectativas da comunidade.

Em resumo: este trabalho teve por objectivo principal analisar as dimensões colectivas das aspirações, humanas tentando ao mesmo tempo identificar determinados elementos responsáveis pelo stress social que caracteriza o mundo actual.

Apesar de tudo, é certo que as dinâmicas culturais desenvolvidas em sociedades relativamente homogéneas continuam presentes no nosso universo cosmopolita.

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