SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:12

Por Terras de Castela: Yuste e Las Huelgas

A neve chegou dois dias antes do Natal. Não desiludiu. Além de oferecer o espectáculo habitual, criou a ambiência ideal para ficar à lareira. Aproveitámos para ler velhos livros e relembrar uma viagem pela Meseta Central, num outro janeiro longínquo e frio.

Queríamos visitar o mosteiro de Guadalupe, não só para admirar os fabulosos quadros de Francisco Zurbarán e Luca Giordano, mas também a despretensiosa casa-palácio de Yuste que não fica muito longe. Após ter abdicado a favor do seu filho Filipe, em 1556, foi este lugar ermo que o imperador Carlos V (1500-1558) escolheu para passar o resto da vida.

É de realçar que, quando as coroas de Espanha e do Sacro Império Romano-Germânico se unem na pessoa de Carlos V, este torna-se um dos soberanos mais poderosos da história universal. As suas vastas possessões cobriam o continente americano, os estados alemães, a África do Norte, Países Baixos, Borgonha e uma parte substancial da Itália,

Com esta recordação em mente, embrenhámo-nos na releitura de um dos gigantes do chamado “Siglo de Oro”, o escritor Calderón de la Barca (1600-1681). Já noutra ocasião tínhamo-lo citado quando dissemos “que a vida é um sonho e os sonhos, sonhos são”.

Para norte desta região temos a serra de Gredos e a cidade de Ávila. E, quando se menciona este nome, pensamos logo em Santa Teresa (1515-1582), uma grande autora que, após ter reformado a ordem das carmelitas, encontrou, em Medina del Campo, Juan de Yepis y Alvarez (1542-1591), mais conhecido por San Juan de la Cruz.

Estes dois escritores revelam uma característica importante do espírito hispânico: o misticismo. O português Oliveira Martins, numa das suas obras sobre a civilização ibérica, afirma que “O espanhol achou no misticismo uma razão para o heroísmo e fez do amor divino a melhor arma para o seu braço”. Opinião que não será com certeza partilhada por milhões de republicanos, sobretudo os membros das lojas maçónicas. Isso será outro conto.

Uma óptima desculpa para mudar um pouco de assunto, continuando sempre em Castela, ou melhor em Burgos, a antiga capital do reino.

A cidade de Burgos está saturada de história. Imediatamente à entrada, temos o que resta do Hospital de São João Evangelista e, adjacente a ele, um mosteiro beneditino. Na catedral gótica do século XIII, encontram-se os restos mortais do Cid “O Campeador”. Um local para visitar com olhos de ver.

No entanto, nesta ocasião, o atractivo para a estadia situava-se nos arredores: Las Huelgas. Este convento foi fundado em 1187 por Afonso VIII, casado com Eleanor de Inglaterra. Foi ela quem pediu ao marido o doado à ordem de Cister e nele apenas professavam senhoras da nobreza. E como se tal não chegasse, foi-lhes concedido o privilégio de não pagarem impostos ou taxas de qualquer espécie. Aqui viviam centenas de freiras, oriundas da fina flor da fidalguia de Espanha. A riquíssima abadessa deste convento tinha tanto poder que era costume dizer-se que se o papa pudesse contrair matrimónio, só ela poderia ser a sua esposa.

Actualmente “huelga” significa “greve”, porém, em espanhol arcaico este termo queria dizer “lazer e repouso”. No museu do convento existe uma rara colecção de vestidos, paramentos, jóias e armas. Os tecidos são de alta qualidade com padrões não só cristãos e judaicos, mas também mouros e orientais. Mais teria se as hordas francesas, durante as invasões napoleónicas, não tivessem destruído e roubado muito do que aqui havia.

Contudo, o que mais impressiona são os dois claustros adjacentes: um românico do Século XII e outro gótico do século XIII, com nítida influência árabe. Uma autêntica maravilha.

Fomos consultar um compêndio de arte espanhola a fim de contextualizar estas particularidades arquitectónicas. De repente, detivemo-nos numa página com a reprodução de um quadro de Doménico Theotocópuli, El Greco: “El Caballero de la mano al pecho”. Como é prodigioso o modo como o pintor dá forma corporal à alma e aos sentimentos da grande fidalguia deste período! Translada com exactidão os afectos e sensibilidades desta época áurea da vida peninsular.

E porque Las Huelgas está no “Caminho de Santiago de Compostela”, é comum encontrar bastantes peregrinos por estes sítios. É hábito saudá-los com um sonoro “buen camino”. Não foi a primeira vez, mas também por aqui ouvimos em resposta: “ultreya”. Na nossa língua talvez se possa traduzir assim: “para a frente com coragem”!

De facto, é preciso muito ânimo para que todos os caminhos nos levem até onde desejamos ir.

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