SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:34

No Natal, sejamos antiquados

Fomos reler o que escrevemos há um ano. Desde então, a Terra percorreu uma órbita completa em torno do Sol e nós tivemos a oportunidade de compartilhar, semana após semana, lua após lua, uma variedade de temas. Hoje, voltamos ao Natal.

Por influência dos povos do centro e norte da Europa, associa-se esta data ao frio e à neve. Quando residíamos em Portugal, sentíamos inveja dos nossos amigos que viviam nessas paragens. Agora, ao redigir estas linhas num país onde o mercúrio do termómetro se mantém abaixo de zero durante uns meses, constatamos que as temperaturas estão relativamente amenas e a relva do jardim, embora de cor parda, ainda não está coberta de neve. Esperamos que a alvura venha a qualquer momento.

No resto do ano, não será de bom-tom dizer que uma pessoa é antiquada. É algo como ter caspa no cabelo. Não mata ninguém, mas tampouco ajuda a imagem. Em chegando o mês de Dezembro, admitimos que ser-se antiquado não é tão mau como isso. Antes pelo contrário.

Ora bem, afinal quais são as nossas reminiscências natalícias? Por certo a ambiência mágica de outrora, sem esquecer as filhoses de abóbora e os coscorões da nossa Avó. Todos aqueles aromas de fritos em azeite, que iam da sertã para o tabuleiro onde eram rolados em açúcar misturado com canela. Recordamo-la a preparar a massa temperada com raspa de laranja e umas colheres de aguardente. Esta vinha da adega do Valeriano, seu genro e nosso pai.

Porém, tudo isso é história. Como a vida desses entes queridos. Na árvore, que já passou por diversos tamanhos e feitios, mais ou menos enfeitada, pouco ou muito iluminada, usamos bolas de vidro, estrelas, laços e lacinhos que já perderam parte do lustro. Também o presépio tem uma ou outra figura com a pigmentação desmaiada. Os talheres melhores saem da gaveta do aparador da sala de jantar e, na cozinha, a velha carretilha para cortar a massa dos coscorões cumpre a sua função anual.

Alguns versos das janeiras ressurgem na memória. Em Torres Novas, nas décadas de cinquenta e sessenta, havia grupos de rapazes que, antes da missa do galo, iam bater às portas, mimoseando os vizinhos com bonitos cânticos. Em troca, recebiam umas moeditas para o Menino Jesus. Outros tempos, em que se podia andar pelo burgo à noite.

Apesar do culto do imediato, da mudança e da leviandade ditado pelo novo-riquismo dominante, o que conta nesta quadra do ano é a tradição. Olhe-se com desdém os fariseus do templo da pátria e valorizemos o que é simples, autêntico, belo e bom. Por esta época, a tradição retoma o lugar que merece e devemos recordar outros serões de consoada, com o ambiente e as gulodices dos nossos antepassados.

Como antídoto para o veneno das correrias, este ano optámos pela simplicidade. Nada de comidas extravagantes nem de saídas inúteis. Os cartões de Boas Festas, à moda antiga, estão no correio e as luzes que embelezam a porta da casa parecem mais convidativas a apagar e acender ao ritmo do bater do coração. Aproveitaremos para ficar por casa a fazer companhia ao lume da lareira.

E porque dias não são dias, sugerimos que os leitores iniciem uma tradição. Telefonem para algum familiar ou amigo com quem não comunicam há muito tempo. Até podem imaginar que vivem num país normal. O Natal é isso mesmo. Toda a gente tem direito a acreditar que os camelos do Gaspar, do Baltazar e do Melchior vêm carregados de coisas boas.

Cuidemos todos para diminuir a dor dos que sofrem, para criar um mundo melhor. Entretanto, onde quer que se encontrem ou quaisquer que sejam os vossos costumes, desejamos um lindo Natal. À maneira antiga. Inclusivamente para os homens de má vontade!

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