SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 21:26

Nem todos os políticos são iguais

Há dias, um colega versado nos clássicos utilizou uma palavra cognatra do português “mitridato” que significa contraveneno. Apesar de não fazer parte do nosso léxico, deduzimos, pelo contexto, o que ele queria dizer.

A explicação jaz na “História Natural” de Plínio. Segundo este autor latino, Mitrídates foi o rei do Ponto Euxínio (135-63 a.C.) a quem se atribui a invenção deste antídoto. O fármaco nunca foi testado, mas partia-se do princípio que era eficaz. Mais tarde, descobriu-se que a fórmula não servia para nada e os efeitos eram semelhantes aos dos placebos da medicina moderna. 

A partir daí, o termo aplicou-se a qualquer tipo de banha-da-cobra, cuja preparação terminava “cum grano salis”, que neste caso significava “com certa dose de bom humor”. Por outras palavras, não se acreditava na receita. Pois não é apenas com uma pedrinha de sal, mas com uma salina inteira, que devemos considerar as prescrições dos políticos. Porém, reconheça-se que há políticos e “políticos”.

Em Portugal, ouvimos com frequência que “todos os políticos são iguais”. De vez em quando até é verdade. Porém, forçoso é confessar que existem excepções. São aves raras, como os apreciadores das letras e culturas clássicas. Com efeito, nem todos são accionistas da firma Pinto de Sousa, SARL. Há alguns que tentam servir a comunidade, sem necessariamente se servirem dela. Como noutras profissões, quem não conhece bons e maus carpinteiros, médicos, mecânicos, professores, etc.? 

É bastante triste ter de testemunhar tamanhas inépcias nos políticos portugueses. Tanto a nível nacional, distrital e local. Alguns jogam nos três tabuleiros ao mesmo tempo. Em Torres Novas, temos políticos cuja cultura democrática é de uma mediocridade confrangedora. Discípulos perfeitos do timoneiro-máximo, a quem servem de correia de transmissão a nível concelhio e regional. Usam métodos idênticos. Possuem os mesmos tiques.

Como ficou bem explícito, há excepções. O mesmo se passa com a gestão municipal, pois há quem seja discreto e eficiente. No entanto, também não faltam ineptos e arrogantes. Um grande louvor para os primeiros. Deve haver quem esteja a planear o “salto”. Quiçá rumo a algum “shore” tropical. Mas, enquanto o negócio for dando é mais rendoso aterrar noutro poleiro pleno de benesses. 

A população não é trouxa e vai descobrindo os truques de ilusionismo. Mais se verá no futuro. Anda por aí quem queira pôr o carro em frente dos bois — ou da “boyada”? Ora isso dá sempre maus resultados, sobretudo nas subidas. Os apoios são ambíguos à dimensão nacional. Mas não esqueçamos que as sondagens são encomendadas pelos governantes a empresas geridas pelos seus partidários. Qualquer caloiro de ciências sociais aprende que as respostas dependem da maneira como são formuladas as perguntas.

Na cena local, basta ler as actas das sessões da Câmara ou da Assembleia Municipal. Constata-se que ainda há quem defenda a população, expondo as arbitrariedades impostas pela maioria. Antes do 25 de Abril, outros situacionistas defendiam o Salazar sob pretexto de não haver alternativa. Actualmente existem alternativas. Em democracia, os governos nacionais ou locais não devem eternizar-se no poder. E, convenhamos, por muito incompetente que fosse, outra gente no governo não conseguiria fazer pior do que a actual equipa chefiada pelo “engenheiro” e seus serventes. 

Foi “cum grano salis” que alguns torrejanos apoiaram o presente governo. Que ninguém fique ofendido se esses e outros conterrâneos se imunizarem contra a peçonha que infectou o país.  Precisamos de um contraveneno. Quem será o novo Mitrídates?

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