SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:34

Paz e Sossego no Mosteiro de Samos

Há nações como o Japão onde quase que se tem de forçar os empregados a ir de férias, tal é o empenhamento dos trabalhadores na vida das empresas. Existem outras, como a Alemanha, a Finlândia, a Holanda ou a Áustria, em que se compreende a ligação entre produtividade e nível de vida. Nos países “ricos”, no estilo do nosso, há feriados e pontes.

Vem isto a propósito de um lembrete recebido da redacção d’O Almonda. De facto, tínhamos esquecido que os portugueses repousam-se por uns dias no último mês do calendário. Estão deveras estafados. Sobretudo de sustentar as sanguessugas que, de há umas décadas a esta parte, lhes andam a sugar o sangue.

Quase “à la minute”, e porque estamos a entrar em Dezembro, resolvemos sonhar com outras paragens e outros tempos. Abrimos uma pasta com apontamentos de viagem e voilà! vamos até à Galiza. Mais precisamente, a Sarria e Samos.

Por repetidas vezes, demos testemunho da nossa simpatia pelos galegos e pelos lugares associados ao Caminho de Santiago. Tampouco será de estranhar a preferência dada a Rosalía de Castro, a triste e malograda poetisa da “morriña” do nordeste peninsular. É ela a autora das seguintes estrofes: “Camiño, camiño branco, /// non sei para dónde vas, /// mas cada vez que te vexo /// quisiera poder t’andar…”

Recebemos há minutos o convite de um colega da Universidade de Santiago de Compostela para passar uns dias em Lugo, onde temos muitos amigos. Serve-nos regularmente de quartel-general para a exploração de pequenas e grandes urbes da região.

Em breve, Sarria será um subúrbio da capital da província lucense. O presente casco antigo da cidade, que durante a colonização romana se chamava Flavia Lambrio, não deve diferenciar-se muito do que era na idade média.

Visitámos este lugar pela primeira vez, numa manhã de nevoeiro e com chuva miudinha. Num longo e estreito vale, num atalho que atravessa montes cobertos com florestas de carvalho, logo após uma curva, deparámos de repente com um edifício imponente.

Era o Mosteiro de São Julião de Samos, de origem visigótica. Um dos cenóbios mais antigos do Ocidente. Parece um frade a meditar, rodeado de castanheiros, com uma colina em cada lado. Foi fundado no Século VI e reconstruído, em estilo gótico, no Século XVI. O claustro principal é da Renascença e a igreja é barroca (Século XVIII). Tem murais contemporâneos sobre a vida de São Bento e pode-se ouvir aqui um revigorante canto gregoriano.

Cerca do mosteiro, existe uma edificação bastante mais vetusta: a Capela do Cipreste. Ao redor, matas e bosques. A invadir a bruma, sons de tambores e gaitas-de-foles.

Vimos monges a tratar de hortas com muros decorados com conchas de vieiras e admirámos a amplidão do edifício. A sua influência não foi inferior, visto que, a certa altura, controlava 200 vilas, 105 igrejas e outros 300 mosteiros de menor dimensão. Foi um importante centro de aprendizagens nos ramos astronomia, medicina e religião. Em particular durante a estadia do Padre Benito Feijóo (1676-1764), uma das figuras de proa da “ilustración” espanhola, vítima de perseguições da Inquisição.

Não muito longe, com Sarria à vista, o Convento da Madalena da Ordem dos Mercedários, que tinham por vocação libertar cristãos feitos cativos pelos muçulmanos. Na arquitectura civil, impressiona o Solar de Tumbiadoiro (Século XVI) da família Somoza.

É local de passagem para milhares de peregrinos, mas as cegonhas ficam-se por aqui. Uma imensa colónia destas aves de arribação elegeu esta terra para assentar arraial.

É uma região favorecida pelos amantes da caça e da pesca, compreendendo-se assim a importância dada à carne de veado, javali e lebre na gastronomia local, bem acompanhada com castanhas e arandanos.

A Cruz de Ferro é outro lugar marcante no “Camino de Compostela”. Trata-se de uma cruz “espetada” em cima de um poste de madeira, situado no topo de um enorme monte de pedras. Uma velha tradição determina que cada peregrino traga um calhau da sua terra natal. Deve ser depositado nesse amontoado que, com o decorrer dos séculos, mais se assemelha a um pequeno morro. A pedra de cada peregrino representa os fardos emocionais, o peso que uma pessoa trás consigo. Diz-se à pedra o que se deseja descarregar. Quando o caminhante a entrega, deixa com ela os problemas que o mortificam.

Se a vida não fosse o corre-corre que é e se tivéssemos uma autêntica escolha, então iríamos passar uns dias com os monges. Impõe-se a necessidade de escapar à confusão e ao anseio generalizado. Em Samos, a comida é excelente e o sossego fortificante. Até poderíamos ir colocar um pedregulho à beira da Cruz de Ferro. Talvez aliviasse as actuais aflições do povo português, continuadamente roubado pelos chicos-espertos lusitanos.

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