SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:45

A Ordem e a Desordem

Mais semana menos semana, sairá do prelo mais um livro sobre a antropologia da vida quotidiana. Tal como noutras ocasiões, trabalhámos com o Professor Jean Lapointe e, desta vez, convidámos um jovem colega para participar neste projecto. Examina o triunfo do que é efémero, proporcionando algumas pistas para a compreensão do mundo em que vivemos. É dessa publicação que respigámos algumas ideias para a redacção deste apontamento.

Trata-se de uma reflexão sobre a contemporaneidade. Sobre o choque da globalização, mas também sobre as novas aplicações da manipulação político-económica das populações. E nesse aspecto, pensamos que o modo como o Estado português se comporta pode exemplificar esta inclinação.

A partir das relações de igualdade típicas das sociedades de caça e recolecção, desenvolveu-se um paradigma de pensamento hierárquico no qual o poder se impõe de maneira implacável. Desta forma, a autoridade transforma-se num componente essencial das relações sociais e da cosmovisão que as acompanha.

Se por um lado, nesta prática, os dominados perdem cada vez mais o controlo do seu destino, não é menos verídico afirmar que os indivíduos para se protegerem fecham-se pouco a pouco em si mesmos.

Assim, ninguém fica surpreendido com o aparecimento de instituições de cariz totalitário que invadem a consciência pessoal sob o pretexto de contribuírem para a segurança afectiva. A realidade é outra, pois constata-se que o custo da lavagem do cérebro se torna eventualmente demasiado elevado.

A vida colectiva exige a invenção e o respeito de determinadas regras de conduta social. Acontece, porém, que a imposição dos princípios de ordem seja levada a tal extremo que um fulano se sinta esmagado pelo poder. Nesta polaridade, a linha de separação é muito fina. Com efeito, bastantes regimes autoritários desenvolveram-se a partir da necessidade sentida pelo povo no que toca à ordem e à protecção.

A Alemanha pode servir de exemplo. Segundo conta Stefan Zweig (1881-1942), em The World of Yesterday, os alemães suportam quase tudo : derrotas militares, pobreza e carências, mas jamais a desordem. Ele insiste também sobre o facto que não foi a aniquilação pelas armas durante a primeira guerra, mas sim a enorme inflação, que os levou ao desespero e fez que acreditassem nos discursos de Hitler. Foi a promessa de pôr fim à anarquia que fez que a pátria de Goethe, Schiller e Kant votasse às cegas no Partido Nacional-Socialista. Há quem explique com argumentos parecidos fenómenos políticos análogos em Portugal e Itália.

Embora sob modalidades diferentes e “democraticamente”, a ânsia de tudo controlar por parte do estado universalizou-se de novo na Europa. Qualquer cidadão passa horas e horas a preencher montanhas de formulários e a subscrever uma miríade de requerimentos para obter atestados, requisições, licenças, certificados, inquéritos, fichas, autorizações e o diabo a sete. Nas sociedades contemporâneas, mal uma pessoa aprende a escrever o nome vê-se logo forçada a assinar formulários e outros documentos até ao fim da vida.

Ainda que o Estado Previdência tenha sido bem-recebido em quase todos os países ocidentais, a cobertura de benefícios tornou-se tão exagerada que um número crescente de cidadãos começou a questionar o seu gigantismo. Não há piloto da aeronáutica que não saiba: as duas fases mais perigosas de um voo são a descolagem e a aterrizagem.

Esta ambição de querer proteger os cidadãos desde o nascimento até à morte fundamentava-se numa determinada lógica instrumental. Não passa de uma utopia nos tempos que correm, visto que deve ser compreendida em termos de uma racionalidade em constante redefinição.

A protecção é um dos elementos do grande desafio que confronta as sociedades modernas. Parece contraditório, mas este frenesim permanente revela um sentimento generalizado de insegurança.

Estamos todos fartos do culto do “novo e melhor” (nos negócios muda-se a cor da embalagem, na política as opiniões), da fé na velocidade (corre-se para ficar no mesmo sítio) e, sobretudo, da leviandade dos governantes. A autenticidade deixou de ter valor. Em geral, os cidadãos andam irritados com a casta política. Acusam-na de corrupção e de ter apenas em consideração a defesa das suas mordomias.

Quem mostra aos políticos os limites à indecência? Os salários, reformas, indemnizações e sinecuras não deviam ultrapassar as realidades financeiras nacionais. Apesar da arrogância, há quem não reconheça ter negligenciado o que os anglo-saxónicos denominam “common sense” (sentido comum). A prioridade tem sido sempre o culto da imagem. Passou-se da democracia à cleptocracia, e desta à canalhocracia.

Concluímos com uma citação. É a ambiciosa Lady Macbeth, que após o assassínio do rei, diz para o marido: “What is done, cannot be undone” (o que está feito, não pode ser desfeito). Aplica-se como uma luva a quem por aí anda com ar de zangado a dizer que até criticou os governos anteriores. Como nesta tragédia shakespeariana, por muito que tentem lavar as mãos elas continuarão sempre ensanguentadas.

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