SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 08:19

Desde Homero, a história repete-se

Para além dos jornais e revistas que lemos todos os dias, por prazer e por motivos profissionais, não desprezamos uma outra actividade que é a leitura de livros. Um hábito adquirido com a aprendizagem das primeiras letras.

Alberto Manguel é um canadiano de origem argentina e autor de The Library at Night. Foi nesse livro que encontrámos uma referência aos “Biblioburros” utilizados nas montanhas colombianas e a seguinte passagem: “os livros eram sempre devolvidos a tempo e horas, porém só um ficou ‘perdido’. Além de obras didácticas tinham levado uma tradução da Ilíada em espanhol. Os aldeões recusaram-se a devolvê-la. Explicaram que a narração de Homero espelhava a vida deles com precisão. Tratava de uma nação destruída pela discórdia, na qual deuses loucos dispunham do destino de seres humanos que nunca sabiam ao certo se viriam a ser mortos” (cf. p.230)

Manguel conta-nos este episódio sucedido nas montanhas dos Andes. Na velha Europa, que tanto deve a gregos e romanos, as faculdades abdicaram dos estudos clássicos. Dizem que se sabe tudo o que havia para saber sobre estas civilizações, que falta dinheiro para os financiar e que não há emprego para estas licenciaturas. Como se as universidades existissem apenas para formar engenheiros, médicos e peritos em “business”. Esquecem-se que as “humanidades” são um conforto face aos descomedimentos da economia e da técnica.

Por isso mesmo, ficámos surpreendidos com o súbito aparecimento de novas edições da Ilíade. A maioria em inglês, um número menor noutras línguas. São particularmente bem-vindas as traduções de Richard Lattimore, reeditada pela University of Chicago Press, e de Anthony Verity, da Oxford University Press. Quem diria que o Cerco de Tróia daria pano para tantas mangas?

A primeira vez que ouvimos falar de Homero, da Ilíada e da Odisseia foi numa aula de história, no terceiro ano do curso dos liceus. O Dr. Albino dos Santos, que também era o director do Colégio Andrade Corvo, debitava nomes que tínhamos de aprender de cor: Aquiles, Agamémnon, Ajax, Helena, Príamo, Telémaco, Penélope, Páris, Heitor, Menelau e Ulisses. Havia igualmente aquela confusão de deuses (Posseidon, Afrodite, Zeus, Apolo, Atena, Artemis, etc.) sedentos de intrigas e envolvidos em brigas sem fim.

O professor bem se esforçava para espevitar a fantasia dos pupilos com as epopeias homéricas, mas os alunos não partilhavam a admiração demonstrada pelo mestre. Como é que aqueles meninos de 12 e 13 anos, frequentadores assíduos da catequese do Padre Búzio e por conseguinte monoteístas, podiam compreender a importância da voz atroadora de Zeus, do arco de prata de Apolo, da voz de coruja de Atena ou da fundição do escudo de Apolo pelo ferreiro Hefaístos, o “Coxo” que se casou com Afrodite.

Recordamos ter visto no compêndio dessa disciplina, a imagem de um barbudo com dois buracos por olhos. Aprendemos então que o imortal Homero era cego. Quase pela mesma altura, lemos uma versão em banda desenhada desta pedra de toque pela qual se avalia a literatura de todos os tempos.

Ah! Quase que nos esquecíamos de mencionar Vénus e as nereidas. Tinham nomes no mínimo interessantes. Enigmáticos para o jovem que então éramos: Tétis, Anfitrite, Panopeia, Galateia, etc.  Também há quem lhes chame Vê-tudo, Infalível, Areosa, Apanha-ondas, Doadora, Bem-casada, etc. Nunca conseguimos descortinar a importância. Má pedagogia? Burrice do aluno? Ainda hoje hesitamos em responder. Contudo, parece que esta constelação de deuses, semideuses, deusas, musas e ninfas abriu a imaginação aos estudantes. Muito antes da televisão e da internet.

Ouvimos falar de novo das nereidas quando, no quinto ano, fomos “massacrados” com Os Lusíadas. Quiçá devido à sua educação de seminário, o Dr. Albino saltou as aventuras com as ninfas. Talvez não fossem assim tão indecentes, visto que, passadas umas décadas, até os passaportes da República Portuguesa reproduziam, na página logo a seguir à capa, uma ilustração de Soares dos Reis sobre o tema. Lá estão as nereidas nuazinhas em pêlo a protegerem as naus do Vasco da Gama.

Os heróis homéricos vivem o tempo de duas formas: primeiro, como destino e, em segundo lugar, como uma causa da sorte. Têm posturas éticas ligadas uma à outra e à “arete” (virtude). Necessitam de um conjunto de capacidades, incluindo coragem, força e prudência, para poderem realizar feitos gloriosos

A procura da fama é uma resposta à força destrutiva do tempo e, por essa razão, uma maneira de alcançar a imortalidade. Por outro lado, a prudência é necessária para que o herói possa fazer face à sorte. A prudência é a chave do sucesso, que é de importância primordial uma vez que garante a fama. É por isso que não pode haver glória sem prudência. No entanto, a busca da notoriedade não escapa às críticas efectuadas pelo poeta.

Homero é considerado a fonte donde brotam todas as estórias. O primeiro a demonstrar como os seres humanos podem ser simultaneamente heróis e tiranos, corajosos e cobardes. Há quem não desista de o revisitar e nunca o esqueça.

Por ter inventado a filosofia, a história, a tragédia e a democracia, a Grécia clássica está na origem do pensamento racional (“pensée raisonnée”) que originou as ideias morais e políticas do Ocidente. Jamais existiu em todo o decurso da espécie humana uma conjunção de tantos talentos. Foi o Dr. Albino que o disse numa aula.

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