SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 10:47

A ilusão Obama (e outras no estilo)

Estávamos a ler o “Nouvel Observateur” (30.10.2011), quando deparámos com uma foto do presidente da câmara de Londres na sua bicicleta. Ia a caminho do trabalho, de fato completo, gravatinha e sapatos bem engraxados. Imaginem! O responsável por uma das urbes mais importantes do mundo a usar este modo de transporte. Sucede o mesmo com a rainha da Dinamarca e outros membros das famílias reais de países escandinavos. Para provar o quê?

Numa perspectiva comparativa, tínhamos lido comentários de grande pertinência sobre este assunto. E íamos tentar sintetizá-los, pois mete dó saber que estes actos apenas ocorrem fora dos contos das “Mil e Uma Noites”. Porém, veio-nos logo ao espírito que devem existir motivos suficientes para explicar a falta de debate sobre o tema. Por uma razão ou outra, achamos mais prudente mudar de assunto.

Estivemos recentemente em Nova Iorque, a meio mandato do corrente presidente dos EUA. Embora sigamos de perto o que por lá se passa, sentimo-nos forçados a admitir que talvez ele não continue a ocupar a Casa Branca por mais quatro anos.

Falámos com diversas pessoas e todas confirmaram que pouco resta da energia de 2008, da vitória do Yes We Can! Este slogan instituía mais que uma promessa. Era uma teoria de transformação radical.

A cerca de um ano das próximas eleições, os americanos ainda não viram a tal mudança. A corrida já abriu e Barack Obama será o candidato do Partido Democrático. No entanto, agora os ventos já não sopram a seu favor. A falência da Lehman Brothers e de outras instituições financeiras deixaram de enfunar as velas da campanha. Terão de inventar outros bodes expiatórios.

Fossem eles do Partido Democrático ou do Republicano, os nossos interlocutores partilhavam a ideia de que o presente governo de Washington não cumpriu as promessas. Com efeito, a convicção geral é que a reeleição não está garantida. Pelo menos é essa a interpretação das sondagens de opinião.

Entre outros enigmas associados a este ex-advogado de Chicago, não conseguimos entender a inércia da sua liderança após o dinamismo antes demonstrado. Os leitores recordarão o referido “Yes We Can”, que até foi repetidas vezes apropriado pelo antigo primeiro-ministro e tantos autarcas portugueses.

Mas os EUA não são Portugal. Nem os seus 312 milhões de habitantes vão em histórias da Carochinha. Como alguns espertalhões da nossa praça, o homem também é um grande retórico e tem charme. Bastante charme! A dificuldade é que em muitas escolas secundárias e nas universidades dos “states” aprende-se a distinguir entre o trigo e o joio. Entre a realidade e as tretas.

Não são só as “Tea Parties” que lhe apontam as escorregadelas. É igualmente o facto de ele não ter satisfeito as promessas. Na Lusalândia, depressa são esquecidos os motivos da escolha feita à boca das urnas. Nas democracias com cabeça, tronco e membros é mais complicado vender gato por lebre.

Seja como for, os cidadãos não prezam presidentes “wishy-washy” (sem firmeza). E a direita não perde a oportunidade para lhe tornar a vida negra. Tampouco os apoiantes à esquerda desculparão a “negociata” que fez com os republicanos para dar aos ricos mais dois anos de carga fiscal reduzida.

Em Washington, os desafios não desapareceram. O presidente não obteve o acordo indispensável para baixar o nível de desemprego (9,2%), nem abater a dívida exterior. De mais a mais, demora a convalescença económica e são obscuras as prioridades políticas. Para cúmulo, a imprensa tem divulgado exemplos de falta de ética nos colaboradores mais próximos.

Os insucessos sucedem-se uns aos outros. Falhou por completo o projecto de adicionar mais 32 milhões de americanos ao Medicare (serviço nacional de saúde), a guerra do Afeganistão mantém-se, o precipício entre os ricos e os pobres aprofundou-se e as finanças nacionais estão à beira do colapso.

No Partido Republicano, perfilam-se as candidaturas do antigo governador do Massachusetts (Mitt Romney) e a de Rick Perry (governador do Texas). Se o primeiro está associado às castas dominantes da Nova Inglaterra, o mesmo não acontece com Perry que é de origem social modesta e com imensos apoios na classe média. Por enquanto, não serão de descartar Michele Bachmann, uma das representantes do Minnesota no Congresso e Herman Cain, um afro-americano da Geórgia.

O próximo escrutínio pode constituir o ponto de partida para uma radicalização à direita ou…para continuar tudo na mesma. As ameaças ao bem-estar público não diminuíram durante o mandato de Obama. De facto, expandiu o número de inscritos na assistência social, permaneceu o envolvimento em conflictos militares e o dólar encontra-se sob ataque. Quanto às finanças, elas andam sem controlo e são legião os proprietários que, por causa do pagamento das hipotecas, entregaram as suas casas aos bancos. Na verdade, o cenário está feio.

Passada a euforia de 2008, quando os eleitores viram em Barack Obama um novo Messias, hoje é fácil compreender o que Milton Friedman disse: “as qualidades necessárias para ser eleito são quase sempre as contrárias das que se exigem para bem governar”.

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