SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:54

Outono e Couves

Nesta época do ano, não hesitamos em repetir que o leste dos Estados Unidos e o do Canadá merecem uma visita. É no Outono que este canto do Planeta assume todo o esplendor. Numerosos são os parques onde se pode andar por veredas atapetadas de folhas com matizes variados. Apenas é preciso um par de botas confortáveis.

Além das colorações de que se pintam as florestas, a vida retém os tons cor-de-laranja das abóboras, o amarelo do milho e o castanho das nozes. Cores associadas ao período das colheitas.

Outubro é quando os canadianos agradecem as dádivas da terra e celebram, no feriado do “Thanksgiving”, o espírito comunitário com que foi bafejado o país dos três oceanos.

Com os dias a encurtarem e o mercúrio a baixar no termómetro, as pessoas acercam-se da lareira. As chamas criam um ambiente acolhedor e é reconfortante passar assim umas horas de lazer. Trouxemos da biblioteca dois vídeos sobre a cozinha italiana e foram eles os inspiradores destas linhas.

Perto de Florença, um produtor de vinho explicava à entrevistadora como preparava uma “entrée” com couves. Gostámos da ideia e logo tentámos descobrir a receita.

Estamos bastante familiarizados com a comida italiana, sobretudo da região toscana. No entanto, o referido viticultor fez-nos encontrar uma nova e simples maneira de aumentar o consumo de couves na nossa mesa. Trata-se da “bruschetta cavolo nero” (bruschetta de couve).

Na América do Norte, usamos “kale” ou “collard greens”. É de preparação fácil: primeiro, retire as pontas estragadas e desbaste a nervura central pela parte exterior, por outras palavras utilize apenas as porções tenras da couve; depois coloque-as num tacho com água fria e um pouco de sal. Aumente a temperatura da água até à ebulição e deixe cozer a lume brando durante 8 a 10 minutos. Em seguida, retire-as da água e deixe escorrer. Torre no forno fatias de pão caseiro, adicione alho picado, uma pitada de sal marinho e disponha tudo num prato de sopa. Cubra as torradas com as couves, umas colheradas da água em que foram fervidas e um fio de azeite extra-virgem. Sirva ainda quente. Experimente. É uma delícia.

Os portugueses sempre puderam comer couves frescas durante todo o ano. Nos países nórdicos, esta importante fonte de vitamina C e cálcio era conservada como pickles ou em salmoura. O que não tem o mesmo valor nutritivo.

Na cidade em que vivemos, aparecem agora as couves roxas com as quais podemos confeccionar pratos típicos. Combinam com carne de porco, borrego ou vaca. São frequentemente cortadas aos pedaços e guisadas em vinagre e açúcar, com um pouco de manteiga e basílico. Cada qual prepara esta hortaliça à sua moda. O sabor depende do vinagre utilizado. Pode ser de vinho, de sidra, de framboesa. Até há quem as estufe em vinho do Xerez. Um desperdício, na nossa opinião.

Pois muito bem. Aproveitemos estas prendas da natureza. Qualquer hortaliça da família brassica é saborosa e óptima para a saúde. Na Idade Média havia quem dissesse que as couves eram o “medicamento dos pobres”. Deviam ser comidas duas ou três vezes por semana. Está provado cientificamente que reduzem os cancros do cólon e, como regra, barram o desenvolvimento de tumores malignos. Além das mencionadas couves roxas e galegas, também merecem referência as couves-flor, couves-de-bruxelas e os brócolos.

No passado, os torrejanos compravam couves quase a pataco no mercado semanal. O centro da vila regurgitava de vida. Hoje, num burgo agonizante por tanto se ter devorado por dentro, mesmo as hortaliças começam a rarear.

Há grupos que andam a coçar-se uns aos outros. A desertificação é evidente. Porém, por vezes dá na veneta a algum ilusionista e lá sai da cartola mais um acto de demagogia. Para criar confusão na mente dos munícipes.

Aceitámos o convite de Inês Vidal (“Jornal Torrejano”, 21.10.2011): “deixo aqui um momento de pausa para todos rirem à gargalhada”. Que grande infelicidade, ainda existirem pessoas atentas e corajosas. Deve haver igualmente quem tenha lido, no sábado seguinte, outras notícias na imprensa diária, sobretudo os comentários escritos pelos leitores. Que falta de pudor. Uma péssima imagem de Torres Novas.

Para os conterrâneos sem mordomias pagas pelo trabalho e pelos sacrifícios dos contribuintes, recomendamos que vão comendo umas couvinhas. O inverno chegará em breve. A flatulência também.

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