SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 02:14

Misericórdia, Filantropia e Sociedade Civil

Paul Ricoeur (1913-2005) escreveu que existem intervenções públicas e relacionadas com o “standing” individual cujas expectativas são enganadoras. Quando os actores não cumprem as promessas diz-se que são ingratos. Compreender o sentido da gratidão é entender como as pessoas estabelecem elos sociais de responsabilidade mútua que ultrapassam as relações de desigualdade.

Por muito estranho que tal pareça, um punhal, um apoio para quem está de pé e uma sala de mosteiro têm todos a ver com misericórdia. Do latim “misericors” que, por seu turno, deriva de “misereri” (ter compaixão) e “cor” (coração).

É humano os mosteiros abrir excepções aos regulamentos. Por exemplo, no que toca às regras relacionadas com o comes e bebes num determinado local. Também designa uma saliência nos assentos dos coros das igrejas contra a qual os crentes, ficando de pé horas a fio, se podiam apoiar. Sem dúvida, um acto de generosidade.

Durante séculos, era habitual os camaradas de um cavaleiro moribundo evitarem-lhe maiores sofrimentos acelerando-lhe o último suspiro. O punhal usado neste feito de caridade chamava-se “misericórdia”.

Que ninguém veja qualquer associação entre os parágrafos anteriores e o facto de ainda existirem alguns portugueses que acreditam no Pai Natal. Com efeito, a maioria dos nossos compatriotas terão na actualidade uma ideia mais clara das repercussões das “inginherias” do desacreditado José Sócrates Pinto de Sousa e dos seus partidários. Os cofres do Estado e das autarquias ficaram vazios, mas centenas de milhões de euros foram descansar nos bolsos dessa “selecta” confraria. Agora é o Zé Povinho que tem de apertar o cinto para saldar os calotes.

Aplica-se aqui o que se lê no brasão de armas britânico: “honni soit qui mal y pense” (Maldito seja quem pensar mal disto). Portugal tem de olhar para a frente. Porém, para que se possa renovar a confiança entre governados e governantes ou propriamente dito: entre roubados e larápios é essencial que os tribunais actuem.

O Estado, a sociedade civil ou mesmo a “troika” deviam exigir e impor o reembolso do dinheiro desaparecido. Os dirigentes, a nível nacional ou local, deviam ficar com a inevitável obrigação de prestar contas, dar contas, explicar contas. Sem atrasos nem demoras.

Nos casos de irresponsabilidade e incompetência, também mereciam ser repostos, na totalidade ou parcialmente, os montantes em que as finanças do Estado, as autarquias e as empresas públicas foram lesadas.

Em chinês, o idiograma para “crise” (的危机) é composto de caracteres que representam em simultâneo perigo e oportunidade. Pois bem, sejamos positivos e vejamos as horas amargas que Portugal atravessa como uma ocasião para libertar o país dalguns defeitos. Se a “troika” trouxe à superfície graves dificuldades na gestão da “res publica”, chegou a vez da sociedade civil preencher esse vazio.

E é neste contexto que ninguém se pode dar ao luxo de esquecer que para responder a determinados problemas sociais são mais produtivas as intervenções dos cardumes de peixinhos ágeis e criativos do que a apatia da baleia chamada Estado. Ainda há dias se podia ler no “Diário Económico” (13.10.2011): “Estado sem dinheiro para pagar a Misericórdias”. Ao que acrescentamos: para o esbanjamento generalizado é que nunca faltam meios.

A filantropia é uma maneira de prestar ajuda a quem necessita. Embora o estado-providência financie programas importantíssimos para o bem-estar de milhões de portugueses, tornou-se mais que óbvio que existem limites. As acções estaduais e algum mecenato por parte de uma ou outra empresa devem achar eco nos particulares. É preciso dar para honrar o que recebemos, em termos de desenvolvimento pessoal e oportunidades profissionais.

Milhares de torrejanos não esquecem. Desde 1534, a Santa Casa da Misericórdia é sinónimo de assistência aos sectores mais vulneráveis da população. Conterrâneos de incomensurável energia, optimismo e empenhamento auxiliaram a comunidade, sem dela se servirem. Estamos a pensar, entre outros, num cidadão exemplar: o Senhor Visconde de São-Gião.

Sempre houve visionários para os quais nada era impossível quando, após ponderação sábia e realista, caminhavam juntos em direcção de objectivos comuns. Estes líderes eram admirados e respeitados. Deixavam obras úteis e sem calotes. Enfim, os tempos eram outros e as gentes também.

Terminou um ciclo. É chegado o momento de passar o testemunho à geração seguinte. É isso mesmo a essência da vida. Comecemos por responsabilizar quem gastou como se não houvesse amanhã e abra-se o jogo à sociedade civil. Caso contrário, instalar-se-á na sociedade portuguesa um devir neurótico.

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