SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:45

Na Madeira e nas Câmaras, o que parece não é

 

Os apreciadores de espectáculos circenses reconhecem que as palhaçadas variam consoante os tamanhos, as disposições e os temperamentos dos artistas. Estivemos há dias no Funchal e pudemos testemunhar uma série de “performances” que fazem jus às grandes qualidades de um especialista nestas diversões.

 

Sabemos como os “reis das bananas”, quando não gostam de quem lhes põe as carecas à mostra, ofendem a torto e direito. Democracia e justiça nada significam para eles, excepto quando jogam a seu favor. Estão psicologicamente perturbados.

 

O Tribunal de Contas, esse mauzão que de vez em quando finge que cumpre o dever, estava ao corrente do que se passava no arquipélago. Da mesma forma, sabe como as câmaras utilizam um “modus faciendi” idêntico. Temos encontrado no próprio “Diário da República” provas suficientes para que, em países mais sérios, bastantes autarcas já tivessem sido chamados à barra dos tribunais.

 

Os buracos nas finanças estão sem dúvida associados à festança de quem pensa ter o rei na barriga. A casta dirigente continua a assobiar para o lado. Dá-se ao luxo de ameaçar quem questione o enriquecimento inesperado e nebuloso! destes figurões que desgovernaram a nação.

 

Se por ventura um magistrado mais distraído se pronuncia contra algumas destas “excelências”, logo se mobilizam as forças subterrâneas que põem e dispõem nesta amostra de Estado.

 

Ninguém sabe como é que os madeirenses vão reembolsar a dívida. Tampouco compreendemos como os habitantes de muitos concelhos liquidarão os calotes acumulados por edis inconscientes. Sempre em nome do progresso. Porém, a função latente de tanto despesismo foi comprar votos e olhar pelas carreirinhas individuais.

 

Referindo-se a um autarca nosso conhecido, “O Mirante” (14.09.2011) perguntava quem iria pagar as dívidas colossais que ele deixa como herança à Câmara Municipal. O mesmo articulista chegou ao ponto de o intitular “político das três pancadas” e explica porquê. Sem quaisquer rodeios.

 

Por coincidência, deparámos no mesmo dia com um informe do PNUD. Segundo este órgão das Nações Unidas, 48% dos portugueses não percebem o que lêem ou têm dificuldade em entender a maior parte da informação que recebem. Esta anotação reporta-se aos compatriotas que foram escolarizados. Íamos acrescentar a nossa taxa de analfabetismo, mas decidimos contra. Faria corar de vergonha qualquer cidadão da União Europeia.

 

Mas voltemos à vaca fria. Íamos a meio caminho na Avenida do Infante, para verificar se continuam a colocar hibiscos vermelhos na estátua da Imperatriz Isabel da Áustria (“Sissi”) quando demos com uma manifestação de trabalhadores. Tínhamos esquecido que era ali a Quinta Vigia, sede da Presidência de Alberto João.

 

Quando regressámos ao hotel, ligámos a televisão para a RTPMadeira e lá estava ele, após a “inauguração” do asfaltamento de 120 metros de um caminho municipal, com a frase usada e abusada por todos os demagogos da mesma estirpe: “Tenho dívida, mas deixo obra”!

 

No “Jornal da Madeira” (24.09.2011, p.2), um pasquim de distribuição gratuita e controlado a 100% pela gente do Sr. Jardim, lemos: “Ponte. O chefe do Executivo madeirense inaugura, pelas 17 horas, a nova ponte da Ribeira Brava. Trata-se de mais um investimento público do Governo no concelho”; “Atouguia. Uma hora mais tarde, Alberto João Jardim inaugura o novo acesso à nova igreja do Atouguia, na freguesia da Calheta. Este é um investimento da Câmara Municipal que ascendeu a um milhão e 75 mil euros”. E por aí adiante.

 

Por seu lado, num artigo de Paulo Martins, podia ler-se no oposicionista “Diário de Notícias” do Funchal (21.09,2011, p.6) que “todo o Governo desta Região Autónoma faz-se em nome da Obra! Não interessa nem intressava, se boa ou má, se necessária ou desnecessária, o que interessa e interessava é que houvesse Obra! Obra repartida ou Obra por inteiro, Obra para inaugurar em várias fases de centenas de metros, no caso de estradas, ou dezenas de postes de electricidade e em vários actos eleitorais, o que interessava é que a Obra fosse feita! Obra que na maioria dos casos não cumpria o orçamento através dos custos a mais, Obra que por vezes não usava os materiais que o orçamento se cumpria a utilizar, Obra que não cumpria em muitos casos os requisitos ambientais, Obra que em muitas situações apenas visava o máximo lucro para os seus executores e o cumprimento dos calendários eleitorais. E fez-se Obra. Muita obra! Com a agravante de que quem vai pagá-la é quem não lucrou financeiramente com esta política da Obra”.

 

Pensámos noutros figurões que dizem e fazem o mesmo. Numerosos autarcas seguiram práticas semelhantes às do Governo Regional da Madeira. Há milhões de euros de encargos assumidos, facturas na gaveta e calotes que não constam na contabilidade oficial dos municípios.

 

O Sr. Jardim representa bem a média dos políticos portugueses, pois encontram-se Albertos Joões em todos os recantos da Tugalândia. De facto, a ambição desmedida, a incompetência, a presunção ridícula e a megalomania não se confinam à Pérola do Atlântico.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados