SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:44

Foi-se o telégrafo, irá o correio

 

É uma realidade incontornável. Os meios de comunicação tradicionais estão a ser substituídos por novas tecnologias. Em três tempos, desapareceram pelo menos os telegramas, as máquinas de escrever, a tipografia a chumbo, os rolos de fotografia, os gravadores de fita magnética, o vídeo e as disquetes. Também os selos estão em vias de extinção. Em breve, serão os jornais de referência e os telefones fixos. O facto de a nossa colaboração ser entregue na redacção d’O Almonda sem utilizar os serviços postais comprova esta transformação.

 

Tomámos alguns apontamentos que explicam parte deste fenómeno e, por conseguinte, os correios servirão de tema para hoje.

 

Cada vez que regressamos à nossa residência em Cascais, verificamos logo o correio acumulado na caixa e encontramos, com frequência, cartas endereçadas aos vizinhos. Os nomes e direcções dos destinatários estão correctos, sem hipótese de má interpretação.

 

É elevado o nível de analfabetismo funcional e quiçá alguns carteiros tenham certa dificuldade em compreender o que lêem, o que não acreditamos. Estamos mais inclinados a pensar que trabalham sob enorme pressão e que têm de se despachar para dar conta do recado. Tudo isto em defesa da rendibilidade financeira.

 

Há perto de uma década, os serviços postais foram privatizados nalguns países. Pense-se nos sucessos empresariais neste ramo comercial na Alemanha, Holanda, Finlândia, Japão, Suécia, Nova Zelândia e outras nações no género. Países desenvolvidos da Primeira Liga onde, por incrível que pareça, nalguns ainda existe distribuição domiciliar aos sábados. Como dantes em Portugal.

 

Pois bem, vejamos o que se passa na Lusalândia. Em Vila do Paço, após um século de presença nessa zona do concelho, a estação local dos CTT encerrou. Já em Junho de 2002, neste semanário, Carlos Pinheiro exclamava “É demais!”. Tinha esperado 45 minutos para levantar uma encomenda em Torres Novas.

 

Desde então, começámos a coleccionar “casos”. No entanto, limitamo-nos a um que descobrimos no “Diário de Notícias” (24.08.2009) e cujo título é “Oitenta pessoas sem cirurgias devido a atrasos nos CTT”. Dele respigamos este parágrafo: “O Gabinete de Comunicação e Imagem dos CTT garantiu desconhecer a situação e não ter qualquer reclamação nesse sentido, mas o director clínico do CHNE, Sampaio da Veiga, afirma terem sido os próprios doentes a comunicarem aos serviços hospitalares que não receberam as cartas a tempo”. Sacode-se a água do capote, à moda da casa.

 

Desta vez, o Zé Povinho cometerá um erro se apontar os médicos como culpados. Com um pouco de esforço, compreenderá que a “socratazia” do abominável “inginheiro” de fim-de-semana é que se tornou responsável pela agudização destes problemas. É do nosso conhecimento que alguns eleitores continuam com azedume do estômago. Recomendamos umas pastilhas de “Pepto Bismol”.

 

Abundam exemplos em que se associam diversos elementos desta problemática. Bastará recordar as incontáveis ocorrências de apropriação de “dinheiros públicos”. Contam-se por milhares os eleitores, eleitos e sucessivos governos a fingirem que não viam, ao mesmo tempo que permitiam a acumulação demais de um salário com reformas principescas.

 

Mas voltemos aos correios, cujo presidente recebia dois ordenados pagos pelo Estado. Em nome da justiça e da tal “ética republicana” sermoneada pela gatunagem política, seria também oportuno que fossem devolvidos, a bem ou a mal, os euros sugados.

 

Ora vejamos. Os jornais noticiaram que o Presidente do Conselho de Administração dos CTT se tinha demitido antes da conclusão do mandato por ter sido divulgado que a Inspecção-Geral de Finanças tinha descoberto que ele recebia em simultâneo cerca de 15.000 euros pelo cargo nos CTT e 23.000 da PT. Contas feitas, o “campeão” nestas habilidades sacava 40 mil euros ao mês e, desta forma, recebeu um MILHÃO e 575,6 mil euros entre Junho de 2005 e Agosto de 2007. Informava o mesmo semanário que o gestor em questão, quando foi presidir os CTT suspendeu o contrato de trabalho com a PT. Porém, “sem perda de remuneração”! Segundo o “Sol” (23.12.2010), o visado declarou que se demitiu por “razões exclusivamente do foro pessoal e familiar”.

 

Haverá quem pergunte quando é que esta gentinha sem escrúpulos nem vergonha aprenderá que o país não tem dinheiro para estas “roubalheiras”? Ou melhor: quando é que veremos alguns destes milhões regressarem ao tesouro nacional?

 

Deixaram de ser prezadas as fortunas dos membros do governo, dos autarcas e da cáfila de “gestores” das empresas públicas e municipais. Existiu quem as admirasse. Agora sabe-se de onde veio a guita. Ela saiu do bolso dos contribuintes.

 

Apenas um exemplo entre tantos outros. Visto que a troika e os europeus com economias produtivas não estão dispostos a financiar o regabofe constante, os portugueses deviam exigir uma investigação deste covil de ladrões. Acabou-se a comédia.

 

Foi-se o telégrafo. O correio está a tornar-se irrelevante. Esperemos que Portugal não tome o mesmo caminho.

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