SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 16:51

Churrascos em fins de verão

 

No país onde passamos a maior parte do ano, as quatro estações diferenciam-se perfeitamente umas das outras. É impossível não reparar que as plantas florescem em momentos quase previsíveis. Às primeiras promessas da primavera, sucedem-se no relvado da casa o trevo-doce e as boninas. Em Julho e Agosto, os canteiros do jardim estão repletos de flores e, onde há flores, há abelhas a polinizar, inclusive a macieira brava do vizinho e os tomateiros deste escrevinhador. A breve trecho, teremos o caleidoscópio das folhas outonais. Mais uns meses e ficará tudo coberto de neve.

 

Verão é sinónimo de descontracção, um período para escapar às inquietações do dia-a-dia. É sol e praia, passeios de bicicleta e churrasco. Pois bem, aproveite-se o que resta do bom tempo para continuar com os grelhados na brasa.

 

Haverá melhor forma para um grupo de amigos se despedir da época estival? Este género de assadura não é um festim, é uma reunião comunitária. Desta vez era constituída por cientistas a trabalhar como investigadores na universidade e no governo federal. Uma grande porção deles nasceu na Europa do Leste (República Checa, Rússia, Bulgária, Eslováquia), outros na Turquia.

 

Todos sabemos que, de um modo geral, a carne é um alimento menos saudável do que os legumes ou o peixe. Deve ser consumida com moderação. Hoje, não estão em voga os bifes pantagruélicos dos “barbecues” texanos, dos “assados” argentinos ou dos “braai” da África do Sul.

 

No entanto, lemos algures que os entendidos nesta matéria condimentam, no dia anterior, a carne com especiarias, ervas aromáticas, alho e cebola, com o objectivo de aumenta o efeito destes antioxidantes. Para quem goste, até se pode acrescentar rosmaninho, orégãos, sálvia e hortelã. Desculpas para manjar o que não se deve.

 

Um borrego inteiro foi cozinhado a lume brando, sob o olhar atento de um grego que se parecia com os marinheiros do Pireu. Pelo menos, no que dizia respeito ao bigode. Foi servido guarnecido com duas saladas: “shopska salata” (tomate, pepino, cebola, salsa e pimentos, tudo bem picado com cubinhos de queijo de tipo Feta) e “mlechna salata” (com iogurte e nozes). Os molhos eram relativamente exóticos para quem não se aventure além dos carapaus de escabeche ou do fricassé de galinha.

 

Numa tigela enorme, encontrámos a versão eslávica de um molho feito de tomate, alho, cebola, pimentos cornicabra e salsa, a que os sul-americanos chamam “chimichurri”. Um dos nossos favoritos. No fim, bolos variados e “baklava”, a sobremesa emblemática das culinárias da Bulgária, Macedónia, Albânia, Grécia, Turquia e Médio Oriente.

 

Os europeus do leste gostam de iniciar os seus repastos com salada acompanhada de uma ou várias rodadas de “rakiya”. Esta aguardente não é por eles utilizada para finalizar uma refeição como é costume fazer em Portugal.

 

Mal tinham chegado os convidados e depressa serviram a “slivova rakiya” (também conhecida por “slivovitz”). Talvez o picante dos acepipes neutralize o elevado teor em álcool e facilite a comunicação entre estranhos.

 

Assim, embora não o conhecêssemos de nenhum lado, em menos de cinco minutos um matemático búlgaro confidenciou-nos que tinha apertado a mão de Kim Il-Sung quando, integrado num coro militar, foi cantar na Coreia do Norte.

 

Logo de seguida, foi ele quem, apoiado por uma investigadora russa em medicina molecular, abriu a cabeça do carneirito e se regalou com a mioleira. Ficámos a matutar se não terá sido a “rakiya” que os inspirou nestas proezas gastronómicas.

 

Ainda conservávamos nas papilas gustativas o sabor dos bons nacos do borrego assado por estes colegas e já estávamos a chegar a Falmouth, onde, como vai sendo hábito, fomos passar umas breves férias.

 

Neste recanto abençoado do Massachusetts, em pleno Cape Cod e com a ilha da “Vinha da Marta” no horizonte, desfrutámos da hospitalidade da D. Maria Cremilde, uma torrejana dos Casais Martanes. Na esplêndida moradia que partilha com o marido o Eng. Peter K. Butler surpreendeu-nos com uma suculenta posta de espadarte grelhado no “barbecue”.

 

Foi um serão bem passado, não obstante as rajadas do furacão Irene a soprarem com toda a força. É curioso, mas as nossas visitas coincidem quase sempre com a temporada das intempéries tropicais, quando a protecção civil alerta o público para “afastar-se do mar e abrigar-se do vento” (“run from water, hide from wind”). Temos tido muita sorte, visto que nunca necessitámos de ir dormir num centro de acolhimento da Cruz Vermelha.

 

Gostamos tanto de Falmouth e do Cabo do Bacalhau que voltaremos ao tema. Sem búlgaros nem borrego no espeto.

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