SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:44

Quinoa, para uma mesa sadia

 

Comemos quinoa pela primeira vez em finais dos anos sessenta. Foi numa festa do Programa de Estudos Latino-Americanos, na Universidade de Indiana. Mais precisamente em casa do Professor Paul L. Doughty, nosso orientador de mestrado e grande especialista das repúblicas andinas. Tinha sido um dos responsáveis pelo célebre projecto de Vicos, no Callejón de Huaylas, no norte do Peru.

 

“Quaker” e investigador de primeira água, era um homem extraordinário, Foi com ele que nos iniciámos no estudo dos povos e culturas da América Hispânica.

 

Os grãos de quinoa parecem perolazinhas translúcidas. Têm um sabor adocicado que faz lembrar o das nozes e textura comparável à do arroz.

 

É um cereal da família das quenopodiáceas. Cerca de 18 % do seu volume é pura proteína, possui um elevado teor de cálcio e constitui uma excelente fonte de ferro, zinco, magnésio, fósforo, manganésio, potássio e vitaminas B e E. Uma taça de quinoa, depois de cozida, tem tanto cálcio como um litro de leite. Além disso, não tem glúten e é fácil de preparar.

 

Há mais de sete mil anos que sustenta milhões de pessoas. Foi domesticada nos altiplanos dos Andes, na mesma época em que o trigo apareceu no Médio Oriente e o arroz na China. Hoje é cultivada em terrenos áridos do Peru, Bolívia e Equador, a mais de 2.500 metros de altitude.

 

Pode-se afirmar que foi eleito o alimento de base dos Incas, venerado como uma divindade. Era o próprio imperador quem iniciava a sementeira numa cerimónia sagrada. Após a conquista, os espanhóis impediram o seu amanho e destruíram as numerosas instalações onde era armazenado nas diferentes zonas do país. Houve excepções nas áreas mais afastadas, como por exemplo Machu Picchu.

 

Assim, não é de admirar que a Espanha tenha vencido em poucos meses um dos maiores impérios do mundo. Não foi apenas devido ao génio manhoso de Francisco Pizarro.

 

Os habitantes dos meios mais europeizados começaram logo a usar trigo e cevada. E, desde o longínquo século XVII, que se associa o consumo de outros farináceos à miséria, ao analfabetismo e à nutrição de animais.

 

Infelizmente, as populações quíchua e aymara agora preferem comer massa e arroz. Crêem que os filhos crescerão estúpidos se forem criados com quinoa. Uma crença introduzida pelos colonizadores procedentes de Espanha que a designavam “comida de índios”.

 

Nas três últimas décadas, uma companhia americana decidiu plantar este cereal pré-hispânico nos estados do Colorado e Novo México, tendo aumentado gradualmente a porção de agricultores que estão a abandonar a lavra da batata a favor da quinoa. As plantas atingem cerca de dois metros e ficam cor de fúchsia. As espigas, essas, pintam-se de uma fascinante paleta com tons de vermelho, amarelo, laranja, ocre e violeta. A que se encontra à venda nos super-mercados tem colorações de marfim e ouro.

 

Existe uma ampla gama de receitas para preparar este manjar. Consultámos diversos livros de cozinha norte-americanos e todos ofereciam algumas sugestões: a vapor, no estilo de cuscuz, com carne de cordeiro, como blinis à russa, em sopa com abóbora, com cogumelos, em salada de batatas, com pato em molho de soja, numa versão boliviana de tamales chamada “humitas”, etc.

 

Está confirmado que a quinua ocupa uma posição cimeira na lista dos alimentos saudáveis e está ligada a uma série de benefícios no tocante à diabetes de tipo 2, à asma infantil, às doenças cardiovasculares e ao cancro da mama.

 

Em boa hora a redescobrimos. Entra quase todas as semanas nas nossas refeições. Além de ser saudável, é uma autêntica delícia.

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