SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 21:14

Crime e Castigo, Dostoievski revisitado

Mal tínhamos concluído a leccionação do trimestre de verão, logo passámos pela biblioteca da universidade e saímos de lá com meia-dúzia de livros para a primeira semana de férias. Os autores que nos farão companhia são: Günter Grass, Philip Roth, Gonçalo Tavares, Javier Marías e um clássico russo. Apesar de uma ou outra leitura de escritores russos (Tolstoi, Pushkin, Dostoievski, Turgueniev, Tchekhov, Solzhenitsyn, Pasternak, Sholokhov, etc), lamentamos com frequência a superficialidade do nosso conhecimento das culturas eslavas. Para muitos ocidentais, a Rússia continua a ser um país imenso e relativamente vazio. É difícil de classificar, pois não se aparenta a nenhum outro. Admiramos os habitantes por se sentirem bem naquela vastidão étnica e geográfica. Já na juventude, associávamos esta nação com infindáveis florestas de abetos, torres de igreja em forma de cebola, exploração dos camponeses e, sobretudo, utopias soviéticas. Terra de crentes e da “Guerra e Paz” tolstoiana, mas também de czares sanguinários e de gulags estalinianos. Uma história aterrorizadora, marcada pelo caleidoscópio de povos que se sucedem uns aos outros nos 10,000 quilómetros de via-férrea que separam a São Petersburgo báltica de Vladivostok, no mar do Japão. Para aproveitar o primeiro fim-de-semana livre, resolvemos reler “Crime e Castigo”. Não por o título se aplicar à política portuguesa actual, mas por ainda não termos esquecido a comoção ocasionada pela nossa primeira leitura da edição resumida em português. Recordamos que foi durante um verão, na adolescência torrejana. Desta vez, aventurámo-nos com a tradução integral em língua inglesa, efectuada por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky. Tem 551 páginas. As tribulações do estudante Rodion Raskolnikov representam a realidade desse período da história europeia, porém o que o diferencia de tantas outras personagens é ele acabar por se confessar culpado. É um clássico que ultrapassa os limites da moda literária da sua época, do seu idioma e da sua pátria. Embora redigida há mais de um século e meio, compreende-se com facilidade a perenidade desta obra. Uma amálgama de materialismo e simplicidade, numa narrativa lógica. Um livro que leva o leitor a uma catarse moral, numa sensação tão agradável como aquela que sentimos ao ouvir uma peça de música que tínhamos escutado e esquecido sem saber porquê. Publicam-se centenas de romances todos os dias, uma percentagem dos quais é traduzida para outras línguas. Por mérito próprio ou sem ele, alguns chegam ao topo das vendas, e é natural que, ao ir de férias, muita gente se faça acompanhar destes “bestsellers”. Eis uma sugestão para leitura de verão. Nas correrias do resto do ano, não há tempo para confrontar um clássico desta envergadura. Ler um clássico não é o mesmo que ver um filme. Exige uma atitude diferente. A leitura tem de ser mais lenta e intensa. Quando uma obra é complexa, somos forçados a concentrar a imaginação para facilitar a criação das personagens e dos lugares descritos pelo autor. No cinema, a concentração resume-se à duração do espectáculo. Ninguém em perfeito juízo afirmará que não vale a pena rever uma ópera de Mozart ou Puccini, por o enredo ser sempre o mesmo. E a música também. A situação é idêntica com a releitura de um livro, sobretudo de um clássico. No meio da canícula estival, à beira-mar ou num canto sombreado do quintal, nada bate o prazer de uma leitura preguiçosa. Quiçá se possa recomendar o “Crime e Castigo”. Nele, aprendemos que não se pode ignorar a consciência. Mais cedo ou mais tarde, QUASE todos os criminosos são punidos. Acrescentámos o “quase”, na derradeira versão deste apontamento. Os portugueses, em geral, compreenderão o motivo desta correcção.

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