SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 11:28

Têm toda a razão, a culpa é da Moody’s!

Comecemos com um título do “DN” (9.07.2011): “281 empresas municipais têm passivos de 1,5 mil milhões”. Da leitura desse artigo retivemos dois pontos: 1. “O endividamento do sector empresarial local aumentou 170 milhões no último ano e agravou em 25% os prejuízos das câmaras”; 2. “Entre 2008 e 2009 as autarquias contrataram mais 8 mil trabalhadores: um em cada cinco funcionários públicos trabalha nas autarquias”. Como se não fosse suficiente para chocar os servos da gleba, a imprensa desta manhã divulga novos números fornecidos pelo Instituto Superior de Economia e Gestão. Afi nal, existem pelo menos 408 empresas municipais, mais do que as 281 “oficiais” (“Público” 21.07.2011). Multiplique-se 408 por um número x de presidentes- directores – mais os respectivos funcionários, e podemos imaginar o despesismo com veículos, combustível, telefones, almoços, cartões de crédito, jantares em família, viagens, fotocópias, aluguéis, energia e por aí adiante. É inenarrável não conseguir-se pôr termo ao regabofe. Como alguém comentava, seria um acto de transparência democrática se o governo (ou…a Associação Nacional de Municípios Portugueses!) publicasse um “ranking por autarquia com o número de habitantes, número de funcionários da câmara e os rácios funcionários por 1000 habitantes, quadros por 100 funcionários” e, em seguida, disponibilizasse aos munícipes a contabilidade das empresas municipais. Já tínhamos lido na imprensa local a reacção de alguns torrejanos – por exemplo o Vereador Carlos Tomé, a outro fenómeno que também nos afecta e que foi noticiado no “DM” (23.06.2011): «Autarquias gastaram 2 mil milhões de euros graças ao empolamento das receitas. O relatório de actividades da IGF é arrasador: 102 municípios gastaram 2.520 milhões de euros apenas por terem sobrevalorizado receitas que não receberam. “Constatámos que a generalidade dos municípios auditados procede ao empolamento sistemático da previsão de receitas orçamentais”, o que gera “um elevado risco em termos de execução orçamental”. “Possibilita a realização ou a existência de um montante muito elevado de despesa: 492 milhões de euros (19 municípios), 913 milhões de euros (34), 750 milhões de euros (34) e 365 milhões de euros (15) “. O referido documento alude apenas a 34 auditorias. Tal como acontecia à serpente das sete cabeças, cada vez que o Hércules conseguia cortar-lhe uma, logo se regeneravam duas em seu lugar. Não é novidade alguma, pois até o “DN” (22.07.2011) realçou esta situação com o título “Estado incapaz de fiscalizar corrupção nas autarquias”. E prossegue: “A Inspecção-Geral das Autarquias Locais (IGAL) admite a sua incapacidade para realizar, sequer, uma inspecção por mandato a cada um dos 279 municípios do continente e, muito menos, para avançar com acções-surpresa”. Confirma-se o que os contribuintes portugueses sempre souberam e que o BCE, o FMI, a Troika, a Moody’s, a Standard & Poor’s e a Fitch agora demonstraram. Há uma percentagem elevadíssima de governantes, políticos e autarcas que pode fazer tudo o que lhes apetece sem serem forçados a dar contas a ninguém. Sendo a natureza humana o que ela é, não hesitam em encher os bolsos indevidamente. Nunca são chamados à barra dos tribunais e continuamos à espera que um ou outro destes intrujões seja obrigado a restituir o que adquiriu à custa do erário público. É óbvio que estes ____ (deixamos ao leitor o prazer de preencher o espaço com os nomes que julgar mais apropriados) ocupam uma posição de relevo entre os principais responsáveis pelo descalabro financeiro. E como foram eles que fizeram desaparecer tantos fundos malparados, agora deviam pagar as dívidas. Não é justo pedirem mais sacrifícios a quem trabalha ou está aposentado, sem acumular duas ou mais reformas. Envergonhem-se e evitem aparecer em público. Compreenderão que o povo os está a olhar como se fossem criminosos. Ainda alguém lhes vai dizer, sem rodeios, a verdadeira causa da nação andar de cócoras, envergonhada a mendigar esmolas. É imperioso que sejam efectuadas auditorias a fortunas feitas de um dia para o outro, no sector público. Desvendar-se-iam assim alguns mistérios acerca destas personagens da tragédia nacional. Em todos os patamares: desde a arraia-miúda nas repartições até aos vice-reis locais. Que sejam investigadas as contas bancárias, as transacções imobiliárias em Portugal e em Cabo Verde, as participações em empresas comerciais. Levem as investigações até ao fim e veremos os resultados. Os mestres em fogo-de-vista e outros jogos de fumaça afi rmarão sem pestanejar que, face à lei, está tudo legal. Ao que respondemos: vão a outro abade para vos deitar a bênção. Vão dizer isso ao gato da vizinha, que é filiado no vosso partido e frequentador da mesma loja. É de lastimar que estes Riquinhos, ao fazerem pirraças, não tenham graça nenhuma diante de quem os contraria. Como diz o provérbio: “cesteiro que faz um cesto faz um cento, caso tenha verga e tempo”. Ora bem, a humilde sabedoria popular vê o que o dispendioso e arrogante aparelho judicial prefere ignorar. Infelizmente, é tudo farinha do mesmo saco. No sorteio da vida, é a rifa que saiu a quem crê que Portugal PODIA ser um país da primeira liga. O problema é que os estrangeiros não param de descobrir as carecas dos nossos políticos e governantes.

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