SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:42

Lapas, a propósito do Germino Cambé

 

António de Guevara (c.1481-1545), clássico da língua castelhana, é o autor de uma obra intitulada: Menosprecio de corte y alabanza de aldea (Desprezo da corte e louvor da aldeia). Quando a estudámos, já lá vão bastantes anos, anotámos o seguinte: livro de lugares comuns em que se faz uma comparação entre a vida cortesã, de que Guevara não gostava, e o bucolismo da vida rural que o encantava.

 

Era assim no Século XVI. O contraste é hoje maior e talvez a frase contenha algo de verdade. As grandes cidades com pressões constantes e o isolamento que as caracteriza, destroem, sem que nos demos conta, a nossa humanidade. No entanto, por muito que se goste do campo, da natureza e da inocência campestre, forçoso é reconhecer que tampouco a vida aldeã é um paraíso. Mas podia ser.

 

Sem explicação lógica, desde criança que associamos “aldeia” com Lapas e por isso conservámos um texto de José Ribeiro Sineiro, no qual levantava a seguinte questão: “Lapas rural ou bairro periférico da cidade?” (O Almonda, 4.Agosto,1995,p.5). Recordamos ter então dialogado sobre o assunto com o Alexandre Martins, ilustre lapense falecido recentemente.

 

Estávamos em sintonia com ambos, no essencial do parágrafo que passamos a citar: “Lapas é como que um jogo de sentimentos e empatia, que leva o cidadão a tomar partido, expressando as suas apreensões, para constatar não haver obstaculização à sua descaracterização como um todo – o velho e o novo. Jóia do urbanismo rural do concelho, corre o risco de perder o encantamento que provoca ao visitante, se não for dada resposta, de ordenamento, ao desarrumado e anárquico crescimento urbano”. Passada década e meia, só os residentes devem opinar sobre esta questão. Não é assunto fácil.

 

Passamos com alguma frequência por este simpático burgo e gostamos de apreciar as suas travessas sinuosas e os vetustos edifícios, construídos há muitas gerações apenas com fins utilitários. Trata-se de um agregado habitacional com características especiais. Se fosse um ser humano, diríamos que tem uma personalidade forte.

 

Ruas, travessas e largos não fazem uma povoação. Não lhe dão a fisionomia. O que faz que uma aldeia seja ela mesma e não outra qualquer, são os homens e mulheres que nela residem. A sua história.

 

Aqui viveram cidadãos honrados que jazem agora à sombra dos ciprestes, mas que contribuíram para a comunidade. Deram-lhe um sentido, um ritmo, um modo próprio de viver. Tivemos o privilégio de conviver com alguns deles, num passado mais recente e igualmente nos tempos da nossa adolescência.

 

Relembramos tantos lapenses com emprego na “vila” de outrora. Deslocavam-se todos os dias, no calor do verão ou no frio do inverno. Entre outros o Sr. Luís, sapateiro que trabalhava na loja da nossa avó. Também a funcionária que lá “apanhava malhas” das meias. Chamava-se Vitória Cambé e vivia na Banda d’Além. O namorado, que viria a ser o seu marido, era operário na serração do Sr. Canais.

 

Muitos desses nossos conhecidos morreram, porém continuam presentes nas memórias dos conterrâneos, dos amigos e dos familiares. Em cem anos, ninguém se recordará deles. Como é votado ao esquecimento quem, cem anos antes, por aqui tenha andado. Contudo, ocuparão sempre um canto do cérebro de quem teve o prazer de partilhar com eles uma parte do quotidiano.

 

A morte é lacónica e misteriosa. Pois bem, colaboremos para que não se apague a memória de uma pessoa que sempre mereceu o respeito dos seus conterrâneos. Nem mais nem menos do que o irmão da Vitória, o Germino Cambé, com quem convivemos durante décadas.

 

Como em tantos outros locais, os vizinhos eram conhecidos pelas alcunhas. É um hábito dos meios pequenos e a aldeia do Germino não podia ser excepção.

 

Embora existam algumas alcunhas de mau gosto, o certo é que são extremamente imaginativas e conseguem sintetizar numa palavra virtudes ou defeitos que definem o indivíduo visado. Estamos a pensar nalguns que foram compilados por um colaborador deste semanário.

 

De facto, uma das principais funções das alcunhas é singularizar a pessoa. Identificá-la como se fosse o nome próprio. Uma maneira de caracterizar o indivíduo, visto que todos os epítetos têm a sua razão de ser.

 

Mas nem sempre assim é. Basta pensar no Germino Cambé que era mais conhecido por “Vadio”. Ele gostava desse nome. Quem o conhecia, sabia de certeza que vagabundo é que ele nunca foi. Antes pelo contrário. O mesmo acontece com alguns dos nossos companheiros de escola. Por exemplo, o “Ministro” (João Maria Pedro Santos) ou o “Bacalhau” (António Cardoso Maia).

 

Longe do paço real, a tranquilidade desta aldeia merece os maiores encómios. E os seus habitantes também. Gente boa. Embora isso não se reflicta nos nomes que chamam uns aos outros. Que passarinhos e pardais não são todos iguais!

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