SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:59

Meias mentiras e verdades incompletas

 

Recordamos ter lido algures que, após a perda dos respectivos cargos, os comensais do erário público e responsáveis pelo défice das finanças portuguesas, passam por um período de depressão. Contudo, os psiquiatras, mesmo os do tipo daquele que foi absolvido de crimes de coacção sexual sobre as suas pacientes (“Público” 13.05.2011), não precisam de se preocupar com o risco destes ilustríssimos compatriotas se suicidarem. Entre outros, primeiro-ministro, ministros, secretários de estado, subsecretários, governadores civis, presidentes das câmaras e deputados. De facto, não se conhecem casos de suicídio de políticos em Portugal. No Japão sim, onde a vergonha e a honra ainda têm algum significado.

 

A promiscuidade entre política e negócios faz que os talentos destes “servidores da Pátria” nunca estejam afastados nem de grandes empregos, nem da acumulação de chorudas reformas. Fazem o seu mel, jogando com o verdadeiro e o falso, a sombra e a luz, metendo em cena situações ou personagens ambivalentes para que, no meio de tanta música, o cidadão eleitor não acerte com o ritmo da dança. Com meias mentiras e verdades incompletas, até há um partido que conseguiu “comprar” a quase totalidade dos órgãos de comunicação social. Desde as araras colocadas nas tê vês até aos franganitos da imprensa regional.

 

Assim se explica que haja tanta gente iludida com festas, viagens a Alguidares de Baixo e inaugurações de obras, pensando que não tem de pagar a factura. É fácil cair na esparrela, pois os habilidosos nestas artes, dividófilos e dividólatras, gostam de martelar que é quase tudo feito com fundos europeus. Como se os alemães, holandeses, suecos, finlandeses, austríacos, luxemburgueses ou dinamarqueses fossem a Santa Casa da Misericórdia a distribuir almoços grátis a “freeloaders” do sul.

 

As páginas de “Economia e Finanças” nos jornais de referência, têm dedicado bastante espaço aos problemas orçamentais da Irlanda, da Espanha, da Itália, de Portugal e da Grécia. Ainda há dias, lemos no “Le Monde” que a segunda etapa da reestruturação grega prevê aumentar de 37,5 para 40 o número de horas semanais de trabalho na função pública. Uma “tragédia” quando se considera que, durante mais de metade do ano, a Acrópole e outras atracções turísticas encerram às três da tarde. O primeiro-ministro helénico e presidente da Internacional Socialista, George Papandreou, declarou ao “Nouvel Observateur” que a Grécia está “étouffée par la corruption et le gaspillage” (asfixiada pela corrupção e pelo esbanjamento). Exactamente o que se passa em Portugal. Com a excepção do “engenheiro” ser apenas um entre mais de uma trintena de vice-presidentes desta agremiação.

 

É óbvio que os modelos de má gestão são abundantes nas nações falidas. Porquê? Puro clientelismo partidário: “votem por mim e eu empregarei os vossos amigos e familiares”. Os leitores sabem que é assim lá e cá. E as consequências são evidentes no “modus operandi” de tantos serviços públicos, quer estaduais quer municipais.

 

Claro que tudo tem o seu preço e os Estados com gestores competentes não se confrontam actualmente com problemas desta envergadura. A história ensinou-lhes que quando não se produz não se ganha e, sem dinheiro, os governantes devem ser prudentes com os gastos. Quanto ao quase acima referido, basta pensar no montante do calote e em quem o vai herdar.

 

Portugal é como uma caldeira velha que trabalha mal. Por muito resistente que seja o metal, o risco de explosão é enorme. A crise a que nos conduziu a cleptocracia destes patifes é de tal ordem que os exímios ilusionistas do partido no poder mal a conseguem esconder. Acreditamos que, com certeza, eles fariam corar de inveja mestres abalizados nesta ciência. O SNI do Doutor Oliveira Salazar, por exemplo.

 

Ora bem, o termo “crise”, tal como “critério” ou “crítica”, tem origem em “kritês” (κριτς) ou seja aquele que faz um juízo ou que forma uma opinião. Por outras palavras: a crise obriga os cidadãos a reflectir para poderem separar o trigo do joio. Não chega reestruturar a dívida, pois também é inadiável reestruturar o país inteiro. A começar pela maneira como actuam o governo central e as câmaras.

 

Talvez fosse útil se os portugueses e portuguesas meditassem mais uma vez sobre o mundo real, onde não se compra a roupa de que gostamos, mas sim a que é à nossa medida. É preciso viver com os pés bem assentes na terra. De pensar que a maioria dos suecos vive na Suécia e a maioria dos portugueses em Portugal. De compreender as vantagens e os inconvenientes de cada sistema. E também os limites. Tão simples como isso.

 

Aproveitamos para acrescentar uma pequena observação. A idade ensinou-nos que a história é como um gato. Nunca sabemos, enquanto o acariciamos, se ele não nos vai dar um arranhão na cara.

 

Visto que Portugal é um dos dois países europeus – o outro é a Grécia! – com o maior número de políticos pagos por habitante, é de lamentar que nas listas eleitorais não exista, como nos testes de escolha múltipla, a opção: “nenhum dos acima”! Se assim fosse, veríamos milhões de portugueses a correr para as urnas.

 

Em conclusão, resta-nos votar nos menos maus. Os bons políticos são pérolas raras e, de modo geral, não se metem nestes jogos do empurra. Sem serem anarquistas, quiçá partilhem a opinião de Emma Goldman: se as eleições mudassem alguma coisa, já teriam sido ilegalizadas.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados