SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 03:17

Surf e Champanhe

 

Imagine-se o leitor que na costa australiana a admirar as ondas enormes. Crianças descalças a correr na areia molhada e, na água, uma dezena de nadadores arrojados. Ou talvez imprudentes. Mais longe, um número ainda menor de jovens com pranchas de surf.

 

De vez em quando, um surfista acha o rebentar das ondas apropriado e logo a atenção dos mirones se concentra na silhueta que, de pé na prancha, desliza com destreza no meio daquelas montanhas líquidas. De um momento para o outro, estes actos de bravura terminam em mergulhos forçados. Um verdadeiro divertimento para quem não se mete em tais aventuras.

 

Gostamos de matutar na “impersonalidade” da ondulação e na grandeza do oceano, reconhecendo que se trata de um mundo pleno de vida, habitado por uma variedade de seres. Tanta gente feliz! Quiçá os tubarões também sejam bons à sua maneira.

 

Assim começam as fantasias marítimas: as que levaram os europeus à descoberta de continentes desconhecidos e as que nos fizeram sonhar à beira-mar das praias regionais. De facto, tal como os actuais “surfers” da Austrália, já os adolescentes da nossa geração “surfavam” nas altas vagas da imaginação.

 

De há uns tempos para cá, quase nada nos surpreende. Existem porém excepções. Desta vez foi num canal de televisão, quando o vencedor de uma competição de surf estava a ser festejado com uma garrafa de champanhe. Como se fosse o Lance Armstrong a adicionar mais uma vitória no “Tour de France”.

 

O cérebro registou. E associou de imediato com uma recente viagem na Air France, por esta companhia servir o pequeno-almoço acompanhado de “champagne”. Não só na classe de negócios, mas também em económica. De uma “cuvée” menos dispendiosa, mas “champagne quand-même”. Como esclareceu o apreciador que ocupava o lugar ao nosso lado.

 

Uma observação pertinente, pois, nas últimas décadas, diversos países começaram a exportar vinhos espumantes. Uns são simplesmente horríveis, outros são tão bons como os vendidos pelas célebres firmas de Reims ou Épernay. Sobretudo quando atendemos à relação preço-qualidade.

 

Para protecção dos franceses, a legislação europeia criminalizou a utilização desta “appellation d’origine contrôlée” fora do quadro demarcado. Contudo, continua bem notável a produção da Catalunha, Austrália, Califórnia, Crimeia, Itália, Alemanha, Nova Zelândia e até da Alsácia. Produtores que não cessam de conquistar parcelas importantes do mercado. Sem necessitarem de escrever “méthode champenoise” no rótulo.

 

Conforme se verifica, a terra da “Liberté, Fraternité, Égalité” uma nação que é mestra em truques de ilusionismo! preferiu reservar a etiqueta “champagne” para os espumantes mais caros. Uma forma semelhante a tantas outras para que o seu consumo se limite aos ricos.

 

Para quê pagar um rio de dinheiro por uma garrafa de Veuve Cliquot-Ponsardin ou Moët & Chandon se podemos comprar duas ou três de “cava” ou “sekt” de topo da gama? As castas são idênticas e, em geral, não diferem muito no que diz respeito a suavidade e elegância.

 

De qualquer forma, devia ser considerado crime de lesa-majestade desperdiçar um “magnum de champagne” para borrifar o vencedor numa prova desportiva em Sydney ou das 500 milhas de Indianápolis. Estas libações podiam ser efectuadas com néctares menos nobres. Mas isso seria outra história.

E voltando ao “surfing”, sentimos a vontade de acrescentar uma nova modalidade: o surf político, variante em que alguns portugueses são campeões. Pelo menos foi o que constatámos num debate da RTP, onde nem faltaram as agressões verbais de tipo “bullying”. Se o coveiro-mor não vê o cartão vermelho, dentro de dias, haverá champanhe a rodos.

Apesar do Estado necessitar de uma cura de emagrecimento, de certeza que estes “governantes” e seus aliados continuarão a beber do bom e do melhor. Seria demasiado ingénuo pensar que vai mudar a dieta com a substituição da máscara do médico.

 

Por hábito, a factura do champanhe fica por conta dos contribuintes que não aprenderam a “surfar”.

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