SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 20:46

Nos Antípodas – Austrália, o País que é um Continente

 

Nesta nação, tudo se apresenta em larga escala. É a única ilha que é um continente e o continente que é um país. O sexto maior do mundo, com uma superfície equivalente a cerca de duas Europas. Também se singulariza por ter começado por ser uma prisão. Hoje, os seus cidadãos reverenciam os antepassados criminosos e ladrões.

 

Quem viaja da América do Norte para a Austrália, perde um dia ao atravessar a “Linha Internacional da Data”. Como sabemos, esta linha coincide com o meridiano de 180º de longitude o oposto ao de Greenwich com alguns ziguezagues para não dividir áreas habitadas ou evitar que vastos arquipélagos como a República de Kiribati e o Reino de Tonga tenham, no mesmo momento, dias diferentes no espaço nacional.

 

Deixámos Vancouver numa terça-feira às 23h45 (Hora do Pacífico) e chegámos a Sydney na quinta-feira seguinte, às 10h20 (Australian Eastern Standard Time). Como o voo é de 15 horas, e sem qualquer paragem, essa quarta-feira não existiu na nossa vida. Desapareceu, pura e simplesmente. Desconhecemos onde foi parar, mas recuperámo-la, no regresso, quando atravessámos no sentido oposto esta linha imaginária. Mencione-se que o avião aterrou em Los Angeles “antes” de ter levantado voo em Sydney. Curiosidades geográficas.

 

É gratificante espreitar pela janela do avião e ver, de novo, terra. Estranha é a impressão, quando se sai do aeroporto e deparamos com uma luminosidade intensa. Para não falar do calor estival. Sensação semelhante à de um cozinheiro ao abrir a porta do fogão para verificar se a galinha no forno está bem corada.

 

Apesar de ser o mais seco, infértil e inóspito dos continentes habitáveis, nele vive uma abundância de espécies vegetais e animais. Muitas delas, podem-nos levar desta para melhor. São mais de 166 as variedades de tubarões; “salties” (crocodilos de água salgada) de 5 a 7 metros de comprimento e com uma particular predilecção pela carne humana; cem espécies de cobras venenosas incluindo as onze mais perigosas do planeta; lagartos com dois metros e meio; alforrecas e medusas que…é melhor não mencionar!

 

A propósito, a cobra mais mortífera do mundo a taipan, cujo veneno é suficiente para aviar cinquenta carneiros, tem aqui o seu habitat natural e, até nos jardins de Sydney, encontra-se a “atrax robustus” (“funnel-web spider”). Esta aranha também não é para brincadeiras, pois a sua mordedura pode ser fatal.

 

Tampouco faltam vastos desertos sem gota de água, nem correntes perigosas no litoral. Trata-se, sem qualquer dúvida, de um país para gente rija. Em tudo.

 

Sim, os australianos são diferentes: corajosos, alegres, extravertidos e prestáveis. Embora conduzam à esquerda, joguem cricket, tenham estátuas da rainha Victória e usem uniformes escolares, parecem-se bastante com os norte-americanos. À primeira vista, fazem lembrar os habitantes da Califórnia. Ou do Texas. Talvez por viverem numa sociedade que é bem organizada, que encoraja a autonomia pessoal e, em geral, igualitária. Com alguns brutamontes à mistura. Como em todo o lado.

 

Cidades com perto de quatro milhões de habitantes (Sydney e Melbourne) são limpas e têm pouco crime, muito sol e um clima agradável. As cervejas locais são de qualidade e servidas sempre à temperatura ideal. A nossa favorita é a VB (“Victoria Bitter”).

 

Foram formuladas diversas teorias sobre os primeiros europeus que chegaram a estas paragens, sobretudo holandeses na costa do Índico (actual Estado da Austrália Ocidental). Também os portugueses aqui deixaram marcas, como ficou provado em 1916, ao descobrir-se, na Carronade Island, dois canhões de 1525 com as armas lusitanas. Conforme documenta a história, três naus capitaneadas por Cristóvão de Mendonça exploraram estes mares.  James Cook, Joseph Banks e os ingleses apenas surgiram no Século XVIII.

 

Os colonizadores aplicaram aos povos que habitavam o continente o termo “aborígenes”, que vem do latim “ab origine” (da origem). Chegaram milénios antes dos primeiros índios da América do Norte terem emigrado da Ásia para o Alasca. De facto, os aborígenes australianos encontram-se no continente há mais de 50.000 anos.

 

Mas, milhões de anos antes dos humanos, já aqui viviam marsupiais. Uns são terrestres (os cangurus) e outros arbóreos (coalas). Devido à construção de milhares de represas e ao desenvolvimento das pastagens para o gado vacum e ovino, há presentemente mais cangurus do que à chegada dos Europeus. Cerca de cem milhões.

 

O problema não é a fartura de cangurus de que só vimos um “wallaby” e estava morto na berma da auto-estrada. O grande desafio são os coelhos.

 

Em 1859, um fazendeiro do Estado de Victória com gosto pela caça, um tal Thomas Austin, cometeu um erro de proporções gigantescas. Importou de Inglaterra 24 coelhos bravos e largou-os nas suas propriedades. Sem predadores e com o Sr. Austin sem grande pontaria, calculou-se que, em 1880, já eram dois milhões. E começaram a invadir os estados vizinhos: New South Wales (Nova Gales do Sul) e Southern Australia (Austrália Meridional). Continuaram a avançar 120 km por ano e os danos causados ultrapassam agora os mil milhões de dólares.

 

A solução foi a introdução da mixomatose cuja eficácia atingia 99%. Porém, os sobreviventes criaram resistência ao vírus e, de novo, a praga atingiu tal dimensão que, segundo a estimativa oficial, ainda sobrevivem uns 300 milhões de coelhos. Os caçadores portugueses a par de darem o gosto ao dedo, podiam ajudar a agricultura australiana. 

 

Como se depreende destas linhas, a Austrália é um país interessantíssimo. Com certeza!

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