SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 01:22

Um Remédio Simples: a Dedaleira

 

Estivemos uns dias em Lisboa e tencionávamos escrever sobre o estado psíquico dos nossos compatriotas, pois tínhamos descoberto alguns dados estatísticos divulgados pelo “Expresso”: “De acordo com o primeiro estudo epidemiológico sobre saúde mental, Portugal é o país europeu com mais doenças mentais referenciadas […]. O rastreio realizado a nível nacional concluiu que 23% dos portugueses já sofreram ou sofrem de perturbações psiquiátricas, enquanto 43% da população já teve uma destas perturbações ao longo da vida”.

 

Compreende-se porquê. Por incrível que pareça, ainda há membros do partido do governo a proclamarem, entre irrelevâncias e delírios, que o país não está tão mal como o pintam as más-línguas. São uns simplexes. Mas afinal de contas, em que país é que vive esta gentinha? Não será, com certeza, neste canto da Península Ibérica.

 

As agressões físicas são julgadas em tribunal. Não haverá alguma alma caridosa que faça com que estes tratantes respondam pelos crimes que cometem contra a saúde mental de toda uma nação?

 

Eles descartam as más notícias como sendo invenções de oponentes ignorantes e mal-intencionados. Porém, elas vão-se revelando como verdadeiras. Também usam a tese das hipotéticas conspirações internacionais. Cada qual acredita no que quer. Certo, certinho é que o poder real se movimenta em grande parte nas “lojas” partidárias, em corredores secretos e mal iluminados, a milhares de quilómetros de distância da transparência requerida numa democracia. Como já o fazia Voltaire, cumpre perguntar : “si c’est celui-ci le meilleure des mondes, que sont donc les autres?”

 

Para quê perder tempo com o que é óbvio e que uma avultada percentagem dos eleitores finge desconhecer? Em vista disso, mudemos de assunto e falemos de algo diferente: a humilde dedaleira.

 

Conhecida cientificamente por “digitalis purpurea”, esta planta adapta-se a uma variedade de terrenos e é fácil de encontrar nos campos e jardins do de Portugal. Dá flores roxas, brancas ou cor-de-rosa em forma de dedal. Por isso, o povo a conhece por dedaleira, erva-dedal ou campainhas. Em inglês, chamam-lhe  “fox-glove” (luva de raposa) e em francês “doigt de la Vierge” (dedo da Virgem).

 

É a partir das suas folhas que se produz a digitalina, usada como tónico para controlar a insuficiência cardíaca e as arritmias. Os homeopatas utilizam-na com o mesmo fim e igualmente no tramento da hidropisia, ou seja “a acumulação anormal de líquidos nos tecidos ou cavidades do organismo”.

 

A digitalina também é denominada digoxina e ficou célebre por dois motivos. Primeiro, por ser indispensável a milhares de pessoas que a utilizam para manter um pulso regular. É disponível apenas com receita médica, na forma de pequenos comprimidos que, numa emergência, se colocam debaixo da língua. Ultimamente, por também estar associada ao tratatamento de problemas de saúde de animais de estimação.

 

Ainda há pouco, lemos que os veterinários andam preocupados com remédios ditos “naturais” que certos praticantes de “medicinas alternativas” estão a receitar para os cães e gatos domésticos. Nem eles escapam.

 

Uma razão adicional para esta celebridade está relacionada com a sua utilização nos “best-sellers” de Agatha Christie e de outros autores de literatura policial. Em forma de um pó branco ou, então, com chá feito de folhas de dedaleira, “assassinaram” tios, cônjuges e outros personagens dos seus romances. Por outras palavras: a mesma planta, diferentes resultados.

 

No verão passado, ao reler uma das obras de Miguel Delibes, retivemos uma frase que nos impressionou. Não tínhamos abrangido na totalidade o que ele queria dizer. Agora sim, parece-nos ter entendido quando diz: “las plantas son unas buenas compañeras. Tienen la ventaja sobre los hombres de que no hablan tan alto. A veces, sólo a veces, susurran”.

 

Talvez isso se aplique à modesta dedaleira. Ela poderia servir para libertar os portugueses das vozes embirrentas e mafiosas que os endoidecem.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados