SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:37

A Grécia e os Gregos – 3. Os Comeres

 

A crise serve de palco para um contraste entre os gregos, que continuam aparentemente felizes e a gastar como se não houvesse amanhã, e os portugueses que perderam a alegria habitual. É o que se observa nas ruas e meios de transporte público.

 

Sim, os nossos compatriotas andam tristes, com ar preocupado e, nalguns casos, por certo mal alimentados. As suas expressões deixam transparecer sofrimento e inquietação. E não sabemos se esta época difícil se harmoniza com uns parágrafos sobre gastronomia. Já se foi o tempo do bacalhau a pataco e, dias antes do Natal, os supermercados portugueses até chegaram a racionar o açúcar.

 

É comum associar uma determinada nação com os gostos e aromas da sua cozinha. Os etnólogos sabem reconhecer nos “comes-e-bebes”, tal como na língua, na habitação e nas práticas religiosas, elementos preciosos para a interpretação de uma cultura. E a Grécia não constitui excepção.

 

Qualquer leitor também identifica com facilidade alguns pratos típicos. Por exemplo, a paella dos espanhóis, o spaghetti bolognese, o vatapá baiano ou o sushi dos japoneses. No entanto, será menos vasto o número dos que saberão que o prato helénico mais emblemático é a “mousaka”.

 

Foi no meio estudantil internacional que descobrimos a “mousaka”. Primeiro, nos Estados Unidos e, mais tarde, em Bruxelas. Nesta cidade, perto da “gare du midi”, havia um restaurante de imigrantes onde jantávamos aos domingos. Os donos, naturais da Ilha de Creta, guardavam ciosamente as tradições dos seus antepassados e os clientes escolhiam, nas panelas e tachos ao lume, o que lhes apetecia comer.

 

Só muitas décadas depois formulámos algumas hipóteses sobre o carinho que dedicavam aos portugueses. O interesse ia além do negócio, pois esta família de Herakleion sentia uma amizade particular pelos povos ibéricos. Comparavam o fado lusitano com o “rebetiko” e será desnecessário explicar que, por força do hábito, aquelas iguarias deixaram de ser exóticas. Recordamos o “sfakiano yiahni” (cordeiro guisado com cebolas e limão). Seria um insulto pedir um “steak frites” naquele local.

 

Esta cozinha, com os seus manjares característicos e apetitosos, ora modestos, ora sofisticados, foi a porta aberta para um mundo de paladares até então nossos desconhecidos.

 

A preocupação com a beleza, uma das pedras basilares da civilização helénica, andou sempre a par do corpo e este, lado a lado, com a alimentação. Como se pode constatar nas esculturas que sobrevivem nalguns templos e museus, o povo grego era belo porque gozava de saúde. Em parte, devido à frugalidade da mesa.

 

Simples, mas inesquecível, foi o almoço de sábado, em companhia de dois casais amigos num restaurante perto da marina de Glyfada, subúrbio ateniense análogo a Cascais. Com vista para para o mar Egeu, comemos os melhores mexilhões de todo o Mediterrâneo. São preparados em vinho branco, com um fiozinho de azeite.

 

Mas voltemos à “mousaka”. Os ingredientes de base são beringelas, courgettes e duas ou três batatas pequenas. Quanto ao recheio, compõe-se de carne de borrego passada pela máquina, tomate, uma colher de canela, meia taça de vinho tinto, orégão e salsa. A cobertura é feita com molho Béchamel: manteiga, farinha, leite, queijo “kaséri”, noz-moscada, dois ovos batidos e quatro colheres de parmesão. Vai ao forno num tabuleiro de barro. Ou de pirex, se assim desejarem.

 

Por volta de 750 antes de Cristo, já Homero descrevia, na Odisseia, festas e festanças em que se comia bem, incluindo umas linhas sobre Aquiles a cozinhar “souvlaki” (espetadas) de cabra e porco, em Troia. Nos Diálogos, Platão, menciona o autor de um dos primeiros tratados de culinária.

 

 Terminamos brindando com Mavrodafni, um vinho generoso semelhante ao moscátel de Setúbal. Se bem entendemos, o nome do motorista do taxi que nos levou ao aeroporto Eleftherios Venizelou assemelhava-se a Péricles, o que não é para surpreender, pois muitos empregados de cafés e restaurantes chamam-se Temíscoles ou Aristóteles.

 

Na Grécia, as pedras dos monumentos sobrevivem o desgaste do tempo. Os nomes e as comidas também.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados