SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 07:54

A Grécia e os Gregos 2 ─ Atenas

 

Na capital grega, civilizações, culturas e épocas convivem sem se chocarem. Ao caminhar pelo centro de Atenas, os visitantes correm o risco de se esquecerem que se trata de uma urbe fundada há milénios, que serviu de berço à democracia e que continua a ser uma referência incontornável na história da filosofia e das artes. Durante muitos séculos, os atenienses também fizeram contribuições importantes nos campos da matemática, medicina e escultura.

 

No entanto, bastará os mais distraídos ou ignaros olharem para o monte onde está a Acrópole para compreenderem que se trata de um local sem igual no resto do mundo. Visível de muitas partes da cidade, esta preciosidade arqueológica serve como lembrança permanente do seu passado sublime.

 

Esperávamos poder voltar a esta cidade, pois, como dizem os habitantes, em cada visita à capital helénica há sempre algo de novo para descobrir. Como se fosse a primeira vez.

 

Decorridas duas décadas desde a primeira estadia, era tempo de regressar. Agora, com as embrulhadas orçamentais e com a inevitável e rigorosa contenção, é fácil observar o difícil contexto que a nação grega atravessa. No entanto, é impossível abandonar os novos padrões de consumo. Toda a gente a gastar mais do que ganha. Uma situação análoga à do nosso país.

 

Logo à chegada, facilmente se constata que a vida está mais complicada. À tradicional convivência, talvez venha a suceder a crispação social. Tal como em Portugal, mas com algumas diferenças. Os gregos já protestam, batem o pé e não hesitam em colocar umas bombitas de vez em quando para sublinhar que a ruptura é devida às demagogias governamentais. Muitas semelhanças e uma enorme diferença: enquanto eles tiveram um Sócrates sábio e honesto, nós temos o homónimo trapaceiro.

 

Mas o mundo não pára na política. Nesta mancha urbana com mais de cinco milhões de habitantes – metade da população da Grécia! – haverá de tudo, mas é nos arredores, ao longo do litoral, que ainda subsistem paisagens deslumbrantes. Por exemplo, os setenta quilómetros de estrada que serpenteia entre montes e o Egeu, até ao extremo sudeste da Península da Ática. Mesmo em pleno Inverno, a luminosidade é deslumbrante. Do templo de Posseidon, vê-se as ilhas Cícladas e o Peloponeso. Por todo o lado, um mar pintado em tons de azul-turquesa. Ao pôr-do-sol, no topo do promontório de Sounio, reavivam-se na memória alguns nomes aprendidos nas aulas do Dr. Albino dos Santos, no velhinho Andrade Corvo: Teseu, Ariane e o Minotauro de Creta. Por outras palavras: um cabo sagrado, mencionado na Odisseia de Homero.

 

Sublinhe-se que não faltam nem barulho nem poluição em Atenas. É essa a imagem transmitida pelos noticiários, em plena crise financeira ou antes dela. No entanto, não deixa de ser agradável passear a pé pelas ruas e ruelas dos bairros antigos da capital. Começa-se pela Praça Syntagma (da Constituição), em frente da qual está situado o Parlamento, em direcção da Praça Omonia (da Concórdia), que, com as ruas adjacentes (Vasilissis Sofias, Statiou e Ermou), constituem o coração da “polis” moderna. A oeste fica o bairro de Monastiraki, a leste Kolonaki, e a sul a interessantíssima Plaka, a lembrar o Bairro Alto lisboeta.

 

A República Helénica está cheia de imperfeições, mas já na Grécia clássica não se adorava a perfeição divina da média dos deuses. As divindades gregas estavam longe de serem exemplares e jamais eram omnipotentes. Tinham todos os problemas e limites dos seres humanos, a que se acrescentavam algumas faltas.

 

E é num voo ao princípio da manhã, com os primeiros raios do sol a darem no Parthenon e a clarear toda a cidade, que deixamos Atenas. Mais um dia a acrescentar a tantos outros na história da metrópole grega.

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