SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 06:47

Escritores velhos e leituras novas

 

Os portugueses da nossa geração liam bastante. Autores estrangeiros que o regime salazarista não aprovava, sobretudo quando eram manifestamente antitotalitários. Por exemplo Silone, Pavese, Brecht, Moravia, Malraux, Remarque, Cholokov, Vittorini, Sartre, Camus, etc. As suas obras eram discutidas e algumas até tinham sido adaptadas para o cinema. Resta a recordação dessa época. De uma mão cheia de semideuses e de outros tantos vira-casacas.

 

Mas essas lembranças podem ser enganosas. O tempo faz aos livros o que faz ao vinho. Depois de serem decantados, os de qualidade transformam-se em pomadas de alto gabarito.

 

Achámos ontem, perdidos no canto de uma estante, “L’étranger” e “La Peste” de Albert Camus (1913-1960). Meio século após a morte do Nobel  de 1957, a sua obra ainda está tragável, visto que uma das característica dos grandes livros é acompanharem-nos nas consecutivas fases da vida: aos 16, aos 27, aos 40 anos e quando deixamos de os contar. As páginas são idênticas, mas a leitura que delas fazemos muda com a idade. No caso de Camus, mantêm-se válidas as questões levantadas. Já o relemos diversas vezes e aprendemos sempre algo de novo. Matéria para reflexão.

 

Mais perto de nós, muito se tem falado de Stieg Larsson (1954-2004), o autor dos três volumes de “Milénio” que permanece na lista dos “best sellers” em diferentes línguas. Outro escritor cujos livros se vendem como castanhas no São Martinho é Henning Mankell. Há quem afirme sem pestanejar que, logo a seguir à Ikea e à Ericsson, os direitos de publicação de Larsson e Mankell são a principal exportação sueca.

 

A longa trilogia de Stieg Larsson tem mais de duas mil páginas, mas o êxito foi rápido. Traduzida em 44 países, as suas vendas ultrapassaram 27 milhões de livros. A SVT (Sveriges Television) produziu versões cinematográficas que também vão acumulando  sucessos de bilheteira e, em 2011, aparecerá um filme “made in Hollywood”. Lisbeth Salander e Mikhail Blomkvist tornaram-se figuras universais.

 

Sublinhe-se, porém, que nem toda a gente os admira na Suécia. Será mesmo verdade que, por trás da fachada de respeitabilidade escandinava, exista tanta violência? Corrupção nas altas esferas da política e dos negócios? Ninguém tem a certeza. No entanto, a fascinação pelos computadores é uma realidade nacional. Assim se explica como Lisbeth consegue entrar no sistema informático do ministério e publicar na internet os orçamentos fantasmas. Dados que assustam os responsáveis pelas falcatruas.

 

Outro sueco que vende livros como pão quente é Henning Mankell. Mais de 34 milhões. O seu comissário Kurt Wallander está para Mankell como Mikhail Blomkvist está para Larsson.

 

Wallander, uma espécie de inspector Maigret em versão nórdica, é o herói mítico de uma Suécia em transformação. Segundo Mankell, ele tem dificuldades de relacionamento com as mulheres, não tem cuidado com o que come, bebe demasiado, gosta de ópera italiana e deprime-se com facilidade. Farto desta personagem, o criador apresenta-a nas últimas tiragens como vítima da doença de Alzheimer. Qualquer leitor compreende que é o fim.

 

Larsson faleceu ainda jovem. Os pais são os únicos herdeiros a receberem milhões de coroas, euros, libras, yens e dólares que recusam partilhar com a companheira do autor. Uma saga legal que, em tom de telenovela, diverte a pátria de Strindberg e Bergman.

 

Mankell, esse continua vivinho da silva. Passa metade do ano a dirigir o Teatro Avenida de Maputo e a orientar outros projectos de desenvolvimento no continente africano.

 

Não é fácil uma pessoa habituar-se à bruma matinal que envolve com frequência as vilas e aldeias do litoral báltico. Conhecemos alguns locais referenciados nas novelas “Os Cães de Riga” e “O Homem que Sorria”. Imaginamos como deve ser desagradável passar lá o inverno: Ystad, Simrishamn, Kivik, Tomelilla, Brantevik, Kåseberga e Löderups. Compreende-se a opção moçambicana.

 

Íamos resumir os temas destas estórias engenhosas, sobre profissionais desenganados e com umas gotas de erotismo bem alcoolizado. Contudo, preferimos ceder aos amantes deste estilo de literatura o prazer de chegarem às suas próprias conclusões.

 

“No tumulto da modernidade líquida, neste bazar que nos serve de mundo”, como diz Zygmunt Bauman, o melhor é fazer uma pausa. Estes livros alguns deles editados em Portugal serão melhor saboreados à lareira, num serão de fim-de-semana. E, para quem estiver para aí inclinado, talvez com um “pure malt aged 25 years” ao alcance da mão.

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