SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 01:52

No Reino da Dinamarca: Hamlet e Andersen

 

Por não ter pachorra para ser governado por sucateiros incompetentes e caricatos, convencido que Portugal não se safa de um futuro ainda pior, um amigo com elevada formação técnica escreveu-nos para comunicar que tinha emigrado. Descobriu que, em troca de impostos por vezes inferiores, ele e a família obtêm melhores serviços públicos em quase todos os países da Europa Ocidental.

 

Nos últimos anos, centenas de milhar de portugueses optaram pelo mesmo caminho. Este, a mulher enfermeira e o filho foram viver “escandinavamente, no Reino da Dinamarca”. São mais três para as estatísticas.

 

Já partilhámos noutras ocasiões a admiração que dedicamos a Shakespeare. Desde as aulas da Mrs. Ford na Lawrence Central High School, em Indianápolis. Jamais esqueceremos o estudo de “Macbeth”. Lembrámos essas aprendizagens quando, decorridos tantos anos, fomos rever Elsinor, a Helsingør actual.

 

Foi essa professora de inglês quem nos ensinou a contextualizar os contrastes sociais, políticos e religiosos da época em que viveu o bardo de Stratford-on-Avon. Compreendemos como as ambições desmesuradas acabam sempre em tragédias. Adestrou-nos a examinar os diferentes tipos de paixões, sobretudo as ligadas ao poder: Macbeth, Julius Caesar, Rei Lear e Hamlet. A ganância do poder político, como força incapaz de ser refreada. A impossibilidade de assumir a “civitas hominis” e a irresistível tendência para a “civitas diaboli”. O medo, mas também a paixão da dor do infeliz Hamlet, príncipe da Dinamarca.

 

Neste estado de espírito, aproveitámos de uma estadia na Escandinávia para visitar Kronborg Slot, a fortaleza que durante séculos controlou o Øresund, ou seja o estreito que separa a Zelândia da Scânia, passagem obrigatória entre o Mar do Norte e o Báltico.

 

Embora Hamlet não seja uma personagem histórica, o castelo serve de cenário à peça de teatro com o mesmo nome. Foi construído no século XV por Erico da Pomerânia, para cobrar portagem aos barcos que por aqui navegavam. Era ao mesmo tempo residência real e fortaleza militar.

 

Mas a presença da Dinamarca na literatura mundial não se limita ao castelo-palácio de Kronborg. Com efeito, os leitores também saberão que é o país natal de Hans Christian Andersen (1805-1875). Nasceu na Fionia (Fyn em dinamarquês), ilha a oeste.

 

Os franceses não se cansam de propagandear os “châteaux de la Loire”. Mais discretos, mas não inferiores em beleza, são os numerosos castelos e solares dos países nórdicos, que, além disso, até têm fiordes. Um deles, logo à entrada de Odense, a capital da Fionia.

 

A cidade está bem planeada, o que dá prazer aos habitantes. Foi fundada há mais de mil anos. Na idade média era destino de peregrinações às relíquias de Santo Knud que se encontram na catedral. Hoje, visita-se Odense pelos parques, festivais e museus. Sobretudo por causa do autor de fábulas de encantar.

 

A antiga residência de Hans Christan Andersen faz parte de um museu que atrai multidões. O escritor vinha de uma família muito pobre e, não fosse um mecenas que o ajudou, nunca teria atingido a fama que teve e continua a ter. Mas nem tudo em torno de Andersen é positivo.

 

Era vaidoso e de mau feitio. Um verdadeiro narciso. Søren Kierkegaard, seu compatriota e filósofo célebre, expôs alguns aspectos da personalidade anderseniana que não se coadunam com a imagem que temos dele.

 

Mal tínhamos aprendido o bê-á-bá e recordamos que os primeiros contos que lemos foram “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo” e “A Pequena Sereia”. Eram publicados em brochuras de poucas páginas, à venda nas tabacarias torrejanas.

 

O percurso que vai das estórias de Andersen à tragédia hamlética é longo. Uma trajectória palmilhada por tantos outros amantes da leitura. Etapas na formação humana. Apraz-nos saber que ainda existem milhões de crianças e jovens que sentem prazer em embrenhar-se pela imaginação criativa. Cada um à sua maneira, vai acumulando conhecimentos.

 

Enfim, reconheça-se que o universo da fantasia não acaba quando se desligam as “playstations”! Ou quando se tem de emigrar em busca de uma vida decente fora de uma pátria que já viu dias melhores.

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