SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 10:19

Um azar nacional ─ também no México

 

Em questões de azar com a justiça, os portugueses estão a piorar em grande velocidade e ocupam um lugar cimeiro na “Champions League”. Há dias, o “Público” divulgava: “Tribunal sem verba para cumprir sentença”, e acrescentava “tratar-se dos mais de 86 mil euros que, em finais de 2006, foram desviados pela inspectora da Polícia Judiciária (PJ) que coordenava as investigações sobre tráfico de drogas, verba que desapareceu do processo e o tribunal não sabe como suprir” (18.08.2010).

 

Deve-se porém reconhecer que temos competição, pois também nos habituámos às más notícias sobre o caos em que caiu a justiça mexicana. Uma sociedade emoldurada numa realidade mais próxima do universo mágico do que do mundo terrestre, onde o governo está a perder a guerra contra o narcotráfico.

 

Embora esteja provado que o México tal como Portugal nunca serviu de exemplo como Estado de Direito, na actualidade, o factor “drogas” complicou ainda mais a equação. A progressão geométrica dos homícídios, não foi acompanhada pelo aumento do número de juízes, nem de funcionários competentes e impolutos. Impera a anarquia.

 

Milhões de cidadãos, sobretudo nas urbes fronteiriças, receiam transformar-se nas próximas vítimas, com os corpos crivados de balas no canto da rua. Magistrados, inquiridores da polícia federal, os próprios oficiais das forças armadas, trabalham com mil disfarces para não serem identificados e, posteriormente, liquidados. Foi esse o destino de vinte e oito mil nos últimos quatro anos.

 

Diversos estados têm auxiliado a pátria de Pancho Villa e Emiliano Zapata na formação de peritos e com equipamento para acelerar os processos judiciais. Para melhorar a segurança dos funcionários. No entanto, os cartéis das drogas e outros negócios ilegais prosseguem as suas actividades, assistidos pelas metásteses deste cancro noutros órgãos da nação. Um avanço sem controlo. Nem o exército é excepção.

 

Segundo estimativas internacionais, apenas um quarto dos assassinos são levados a tribunal e, destes, é mínima a percentagem que vai para a prisão. Os cadáveres das vítimas “evaporam-se”, as outras provas também. Em Tijuana, mais de 300 corpos foram dissolvidos em bidões com ácido.

 

Já em 1973 ou 74, escrevemos n’O Almonda sobre uma viagem então efectuada. Uns anos atrás, tínhamos feito a cadeira de “História do México” com o famoso Professor Quirk e vários seminários sobre as populações autóctones do continente. Regressámos com os olhos cheios da magnífica cultura azeteca. Uma civilização densa e complexa cujos quadros mentais e referenciais são difíceis de interpretar.

 

É com merecido orgulho que os mexicanos mostram aos visitantes a Praça das Três Culturas, no centro da capital com cerca de 20 milhões de habitantes. Dizem que traduz a alma deste povo: a espiritualidade das ruínas azetecas, a solenidade da catedral hispânica e a vibrante arquitectura contemporânea. Recordamos os pares de namorados e as vestimentas brancas. Por todo o lado, uma multidão de vendedores ambulantes. Estavam indiferentes à majestade do seu passado grandioso e vendiam de tudo para comprar as “enchilladas” para a ceia familiar.

 

Contam-se por dezenas de milhões as pessoas que vivem na pobreza num país onde se acumulam fortunas colossais. Qual a razão de ser desta situação? Haverá muitas explicações, mas hoje ficaremos pela analogia com a Lusalândia do Freeport, do Apito Dourado, da Cova da Beira, da Face Oculta, do Major Valentão, da Fátinha Felgueiras, etc., etc.

 

Em Abril, tínhamos lido no “El Mundo” (18.04.2010) que “a corrupção custa às empresas mexicanas 62.500 milhões de euros”, quase 10% do PIB da segunda maior economia da América Latina. Como nota o referido diário, “uma pessoa pode conseguir o que quiser desde que abra a bolsa e é raríssimo um funcionário público ou um político resistir à ‘tentação’ de obter um suplemento ilícito de salário com raízes na burocracia kafkiana e na inoperância da justiça”. Do resto do artigo, retirámos que são os funcionários e os políticos, a quem compete a aplicação das leis, que exigem um montão de burocracias para, no fim, não despacharem o que é de direito sem primeiro receberem “la mordida”.

 

Esta “mordida” não se limita aos clássicos do Terceiro-Mundo. Desde logo, os portugueses percebem que também constitui um elemento essencial da lusitanidade. Tão-pouco anda arredada das nações que sermoneiam contra a malgovernação. Estamos a pensar na França, onde o “Bakchich”, blogue e revista, expõe casos de corrupção. Ao percorrê-lo, deparámos com o nome do “maire” de Rambouillet, membro do UMP (direita sarkoziana). Idem no “Nouvel Observateur” e “Libération”. Ficámos informados que um grupo de eleitos (inclusive do PS francês) identificaram ilegalidades cometidas pelo referido autarca e houve julgamento no tribunal. Visto que essa “commune” se geminou com o município torrejano, é bom de ver que estas nódoas mancham igualmente as terras da “égalité”.

 

Voltando ao país dos azetecas, dos maias e dos toltecas, não surpreendeu ninguém a recente falência da “Mexicana de Aviación”. Companhia estatal até 2005, era uma espécie de TAP no palco de Cantiflas, com pilotos a ganharem mais 49% do que os colegas das companhias americanas. É óbvio que havia outras habilidades e perícias nas despesas da empresa (“The Economist” 14.08.2010).

 

Em conclusão, ao falar do azar de um país ou de um povo, será acertado ter em conta que tanto o futuro é o passado como o passado é o futuro. Quem desembolsa impostos e mais taxas para as viagens, os BMWs e os telemóveis dos servidores públicos? Quem é forçado a respeitar as leis?  Quem vai preso? Sempre a arraia-miúda!

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados