SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 01:20

A Vida é Uma Tigela de Cerejas

 

Os portugueses andam tão ocupados com a luta pela sobrevivência et cetera e tal que, ao chegarem às férias, sofrem durante dias de uma apneia de optimismo. Acreditam nos pozinhos de perlimpimpim, sem se darem conta que estão condenados ao suplício de Tântalo, ou seja desejarem algo que lhes escapa sempre.

 

Alguém com um escafandro poderia mergulhar nas águas chocas da governação e acharia muitos trastes apodrecidos pela ferrugem. E um destes patifes é o nepotismo, que contribui à grande e à francesa para o enferrujamento da democracia. Ele está presente no amplo leque das instituições governamentais, nas empresas estatais e camarárias, nos institutos, secretarias, gabinetes, observatórios e assessorias, e, como se pode ler na imprensa regional, a moda pegou nalguns municípios. Até já temos vereadores da mesma família. É indecoroso.

 

Vem isto a propósito do que foi divulgado na “Sábado” (10.Jul.2010): “O Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda solicitou ao presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos César, o relatório das despesas detalhadas e completas referentes à deslocação de Luísa César e respectiva comitiva ao Canadá […] Considera absurdo o valor de 27 423 euros, tendo em conta o “custo médio” das despesas em causa, como viagens, alojamento e aluguer de viaturas. Em causa está uma viagem de Luísa César, mulher de Carlos César, à cidades de Winnipeg, via Toronto, no Canadá, acompanhada por dois assessores, entre 9 e 14 de Março. O BE salienta que o Estatuto Político-Administrativo dos Açores não prevê “qualquer qualidade institucional de cônjuge do Presidente do Governo”, frisando “não compreender que se tenha gasto uma quantia tão avultada tendo em conta a implementação de medidas para a redução de despesas do executivo”.

 

Também se ficou a saber que a esposa do presidente açoriano é a funcionária coordenadora da Presidência do Governo. Entra perfeitamente na definição de nepotismo e mesmo países do Terceiro-Mundo o Brasil, entre outros têm leis que o proíbe.

 

O marido da Madama César declarou que se aplicaram “os princípios de transparência e legalidade”; considerou “relevante o objectivo da viagem”; e acabou com uma frase monumental: “deveria ser seguido por todas as entidades regionais e autárquicas”. Ora bem, não é preciso procurar muito para encontrar exemplos desta dedicação familiar. Se fosse um dirigente africano ou o Presidente da Madeira? Então, não faltariam piadas e lições de moral.

 

Talvez seja melhor acabar com esta conversa, pois a gangrena começa a feder. E um possível antídoto contra a podridão é pensar em coisas mais agradáveis.

 

Vimos recentemente um vídeo com a represenção de “O Cerejal”, de A. Tchekhov, da qual  retivemos que todos temos um cerejal, porque todos tivemos uma infância. A recordação de um tempo onde o amanhã não se parecia com o ontem e onde crescer não era sinónimo de envelhecer.

 

Por associação de ideias, lembrámo-nos quando ouvimos a expressão: “Life is not a bowl of cherries” (a vida não é uma tigela com cerejas). No sentido utilizado por Tom Hanks, no filme “Forest Gump” (1994), quando ele repete uma frase que a mãe utilizava com frequência: “Life is like a box of chocolates; you never know what you’re gonna get” (a vida é como uma caixa de chocolates; nunca se sabe quais as surpresas que estão lá dentro).

 

E pensando bem, podemos ligar esta ideia com outras, muito mais positivas, relacionadas com fruta doce, sumarenta e irresistível. Dizem os especialistas que as cerejas ajudam a controlar o açúcar do sangue e são óptimas para o coração. Por terem muitos antioxidantes, também participam no combate contra o cancro e há quem afiance que protegem da doença de Alzheimer.

 

Em 2009, visitámos a Cova da Beira em pleno festival das cerejas.  Ainda adolescentes, já tínhamos descoberto os deliciosos “cherry pies” da Família Price e, pouco depois, na Bélgica, apreciávamos as primeiras cervejas “kriek”. Quase no outono da vida, esta fruta continua a fazer parte da nossa existência e ainda hoje gostamos de borrifar com umas gotinhas de “kirsch” (aguardente de cereja) alemã os “clafoutis” à maneira da Bretanha. Dentro de momentos, celebraremos a conclusão deste apontamento com um sorvete artesanal com pedaços desta drupa. As temperaturas estão altíssimas e, pela rádio, estamos a ouvir que os cozinhados dos “engenheiros” estão a ficar cada vez mais esturrados.

 

Afinal de contas, a vida é ou não é uma tigela cheia de cerejas? Que respondam estes espertalhões que tanto desgaste andam a fazer à nação.

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