SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:38

A memória dos “meninos” da escola

 

Chegou o verão, mas em vez de céu limpo a cena nacional está carregada de nuvens negras. No meio da tempestade financeira, são raros os raios de sol. Por isso mesmo, cumpre saudar o espírito positivo dos antigos alunos dos Professores Silva Paiva e Oliveira que, apesar da crise, não hesitaram em responder à chamada para mais um encontro anual.

 

Acontecimento que se vem repetindo desde 1990, quando um pequeno grupo de nostálgicos partilharam tordos e copos na adega do João Farinha Cordeiro.

 

No entanto, foi em Dezembro de 1991 que se efectuou a primeira grande confraternização. Como se pode verificar numa fotografia publicada n’O Almonda (27.03.1992), participaram nesse evento os companheiros José A. Mourão, António A. Cotovio, Humberto B. Silva, Fernando D. Alves, Victor P. Rosa, C. Sousa Alves, Manuel Reis, Rogério S. Aires, José S. Vieira, António Costa, João Maria P. Santos, Orlando P. Neves, João F. Cordeiro, Zeca Fragoso, José Carlos Vieira e Luciano Neves.

 

Logo ficou expresso o desejo de continuar no ano seguinte e de convidar os ex-alunos do Prof. Domingos de Oliveira, pois, além de terem a mesma idade, concluída a instrução primária, muitos foram colegas quer no Colégio Andrade Corvo quer na Escola Industrial e Comercial.

 

No dia 19 de Dezembro de 1992, preparou-se um almoço na Charneca de Alcorochel. Chovia a potes, contudo as duas equipas estavam bem representadas para enfrentar um valente “cozido à portuguesa”.  

 

Dezoito anos mais tarde, a edição 2010 desta bela iniciativa realizou-se no mesmo restaurante, “O Sobreiro”. Agora foi “al fresco”, numa esplanada com vista magnífica para a Serra d’Aire. Por coincidência, também comemos um cozido guarnecido à maneira.

 

A “malta” teve a oportunidade de se interrogar sobre o significado da época em que compartilharam os bancos da escola, no Largo do Salvador. O passado mantem-se bem presente: quer numa palavra, num gosto ou num traço de personalidade. Está sempre perto, mas dissimulado, mascarado, secreto. Mas pouco basta para que venha à superfície. Quiçá o Sigmund Freud já tenha explicado este fenómeno. Que importa?

 

Num país onde enxameia a plasticidade no mau sentido do termo, ou seja a aptitude que permite contradizer hoje o que se disse ontem, esta “malta” não arreda pé no que toca às tradicionais almoçaradas. Até podiam adoptar como lema: “Continuidade, fidelidade e reinvenção”.

 

E na realidade houve novidades. Decorrido mais de meio século, os “meninos” tiveram o enorme prazer de rever o António Júlio Gonçalves Graça e o Jaime Paulo Pedrosa da Fonseca.

 

Este, lembrando a passagem pela escola do Salvador, escreveu umas linhas que farão arrepiar alguns “atletas”: “aí fomos colegas durante a instrução primária sob a orientação pedagógica do triunvirato formado pelo professor Silva Paiva, director da escola, do seu ponteiro de cana-da-Índia e da sua régua com a qual eu tinha uma relação íntima, tal foi o contacto frequente que mantivemos durante aqueles quatro anos. Recordo igualmente que ele nos punha na secretaria a preencher os ofícios. O Estado Novo nunca nos pagou esse trabalho”.

 

A nossa memória é a nossa vida e, acrescenta o Jaime, “quando ela se for esta acaba”. Ora bem, para que sigamos vivinhos da costa, respigamos algumas recordações do nosso camarada: os soldados que arrastavam as botas cardadas pelas ruas da vila até à hora do recolher; a romaria em dia de juramento de bandeira; a passagem das intermináveis colunas militares à ida e no regresso das manobras em Santa Margarida; o mercado semanal ao ar livre e o melão a cinco tostões o quilo; as feiras de Março e de Novembro; os santos populares com as suas fogueiras, o cheiro do rosmaninho, as danças de roda e o jogo do cântaro; os concursos internacionais de pesca desportiva; os torneios de tiro aos pratos; os jogos de futebol no Almonda Parque, cuja instalação sonora debitava “ad nauseam” o Rock Around the Clock; a esplanada do jardim e o cinema ao ar livre no antigo Colégio de Andrade Corvo; a inauguração do novo Cine-Teatro Virgínia e a exibição dos filmes Marcelino Pão e Vinho e La Campanera.

 

Para surpresa geral, foi sorteado “Det Politiska Djuret” (O Animal Político) , um livro de Richard D. Ryder. Ganhou este prémio o Américo, do clã dos Oliveiras, que tem onze meses para o traduzir de sueco para português. Para que os Silva Paivas não se sentissem lesados, esta ilustríssima confraria atribuiu ao Jaime Fonseca o Troféu Ratoeira

D’Ouro 2010.

 

Após o acto prandial, os comensais passaram para uma sala contígua onde imperaram o Jorge Pinheiro, o rouxinol dos Oliveiras, e o Eduardo Galamba de Sá Pires, acordeonista-mor da Orquesta Ligeira Silva Paiva. Assegurou-se assim o empate, mas não fosse a ausência do Prazeres e do Baltazar Farinha os “oliveirinhas da serra” teriam perdido o desafio.

 

Não pomos em causa a qualidade de outras reuniões de antigos estudantes que têm lugar em Torres Novas. No entanto, neste caso particular, devemo destacar a nossa especificidade. Trigo sem joio, vinho de casta. E ainda bem…

 

Aos organizadores de serviço (Luís Ribeiro, João Cordeiro, Mourão, José Augusto Pedro, Zé Carlos Nicolau, & Companhia Ltda.) os nossos agradecimentos e felicitações.

 

Fazemos votos que, para o ano, possamos dar mais quarenta abraços. Calorosos como os que a “malta” dava nos tempos da escola. Para avivar a memória.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados