SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 19:12

A outra Europa, a dos Escandinavos – 1

 

Daqui a poucos dias estaremos numa parte do mundo onde tudo parece funcionar como deve de ser. As pessoas são pontuais, bem educadas e com aspecto civilizado. Nenhum motorista tem a ousadia de desrespeitar os direitos dos peões e estes não atravessam as ruas fora das faixas para esse efeito. Os alunos não chegam atrasados às aulas e o “copianço” é desconhecido.

 

Tanto nos dois países que partilham a península, i.e. Suécia e Noruega, como na Dinamarca e Finlândia, qualquer visitante do sul do continente, habituado às aldrabices gregas, à corrupção portuguesa ou à eterna bagunça italiana, fica admirado com a organização e a eficiência dos nórdicos.

 

É gratificante constatar que ainda existem sociedades onde reina a tranquilidade e o civismo, onde pessoas e bens são protegidos e respeitados pela lei.

 

Recordamo-nos que fomos à Noruega passar um fim de semana e tínhamos deixado a bicicleta na estação de caminho de ferro de Växjö, a dois ou três quilómetros do campus universitário. Tínhamos esquecido o cadeado e, no regresso à Suécia, pensámos que, entretanto, o velocípede tivesse “desaparecido”. Estávamos a planear apanhar um táxi para casa. Pois imagine-se o espanto quando descobrimos que ninguém tinha tocado na bicicleta.

 

Nas repetidas estadias por estas paragens, surpreende-nos que quase tudo dê certo. É difícil acreditar. Como é possível viver de maneira tão certinha? Será por causa dos habitantes? Do sistema de ensino? Da Democracia com D maiúsculo?

 

Haverá coisas erradas. Porém, para quem, como nós, entra em Abril e sai em Junho, parece um sonho.  Excepto no que toca a comes e bebes. Um pequeno senão.

 

De grande fama é o típico Smörgåsbord. Não é um prato, mas sim um repasto composto de vários pratos. A palavra smör significa manteiga, smörgås um tipo de sanduíche aberto e bord uma mesa. Em português simples, quiçá se possa traduzir por “mesa com pão e manteiga”. Em suma: é uma colecção de iguarias servidas em estilo de buffet.

 

Aos sábados, sobretudo nas províncias meridionais (Skåne, Blekinge e Småland), são numerosos os restaurantes a esmerarem-se na preparação destas refeições.

 

A variedade de cores dos alimentos faz desde logo crescer água na boca. Quanto aos sabores, tudo depende. Os adeptos do bacalhau com couves, riscam ficar com fome. O que, além do mais, pode ser útil se desejarem perder peso.

 

De que se compõe esta refeição? Salmão fumado cortado fininho (gravad lax), arenques em molhos variados, queijos (curados como o Västerbotten ou com especiarias como o Kryddost), Janssons fretelse (batatas, cebolas e anchovas com natas), camarões ao natural, ovos, enguias fumadas, rosbife frio, pickles de beterraba, almôndegas (köttbullar), puré de maçã, rabanetes, fruta, bolos e diversos tipos de “knäckebröd” (pão parecido com bolachas).

 

Confessamos, no entanto, uma predilecção pela carne de rena com cogumelos e bagas silvestres. É sabido que esses animais apenas se encontram na Lapónia, portanto no extremo norte da Escandinávia. O que não tem graça é acompanharem esta delícia com água mineral ou, às vezes, schnaps (brändvin, akvavit, aquavit) ou seja… aguardente! Com um pouco de sorte, talvez se lembrem de oferecer uma cervejita sem álcool (lättöl). Mas isso é em honra dos convidados estrangeiros, que, se lhes fosse dado a escolher, optariam por um tintol encorpado.

 

Quem tiver amigos com uma “stuga” (pequena cabana) junto a um lago, é em determinadas situações distinguido com um banquete de “kräftor” (lagostins de água doce). Nunca esqueceremos um feriado passado perto de Emmaboda. Testemunhámos como o verniz pode estalar nestas pessoas, quando se embriagam. Até ao apanharem um pifão, conseguem bater os europeus do sul. Outra aprendizagem escandinava: para evitar problemas, é recomendável deixar as festas antes do fim. Uma questão de prudência.

 

Concluímos com um louvor que, diga-se a verdade, também se aplica a alguns portugueses. Há anos, passámos uns tempos em Uppsala e, num fim de tarde, ao tentar voltar ao apartamento onde a universidade nos tinha alojado, perdemo-nos. Não havia maneira de atinar com a direcção. Para cúmulo, tinha começado a chover e nem sequer tínhamos connosco o mapa da cidade. Pois ao pedir a um casal de meia-idade que fizesse o favor de indicar como chegar ao nosso endereço, saíram sem rodeios do seu caminho e só nos deixaram após encontrarem a porta que tanto buscávamos. São actos como este que deixam boa impressão nos estrangeiros.

 

Continuaremos em futuras edições estes apontamentos sobre o Norte da Europa.

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