SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:12

Primavera e Sapos

 

William Shakespeare é o autor de “A Midsummer Night’s Dream”, uma genial comédia de equívocos, e a crónica de hoje podia inspirar-se no bardo de Stratford-on-Avon e intitular-se “Sonho de um dia de primavera”.

 

De facto, a Páscoa trouxe sinais da nova estação. Foi de um momento para o outro, sem quase se dar por isso.

 

Um toque de verde aqui, outro acolá. A luminosidade que vence a penumbra e as árvores  a ressuscitarem da letargia invernal. Até as crianças chilreiam como a passarada que regressou do sul. Esta manhã, ainda não eram cinco horas e já um “robin” (melro da América) acordava a vizinhança. Esboçam-se sorrisos e as bicicletas saem das garagens.

 

No entanto, estas linhas não têm como objectivo tecer louvores à primavera. Apenas expressam a alegria por as temperaturas estarem mais agradáveis.

 

E é no quadro geral desta transformação, que descreveremos uma observação efectuada durante o habitual passeio higiénico à beira-rio.

 

Junto ao carreiro que costumamos usar, surpreendeu-nos um movimento brusco no meio das ervas. Devagar, fomos ver o que se passava. Deparámos com uma “garter snake” (thamnophis sirtalis). Talvez por causa do clima, é raríssimo encontrar répteis neste canto do mundo. Para cúmulo, a cobra estava a tentar engolir um sapito (bufo americanus) que mediria, no máximo, uns 2 centímetros. Só se viam as pernas fora da boca do ofídio.

 

Serve tudo isto de desculpa para dizer que tanto os sapos como as cobras também são benvindos no nosso jardim. Confirmam que não utilizamos herbicidas nem fertilizantes químicos e que, com a ajuda do composto, conseguimos alcançar um determinado nível de equilíbrio ecológico.

 

Ora os sapos, por serem anfíbios, têm uma pele muito sensível  e são bastante vulneráveis aos produtos tóxicos. Alimentam-se de insectos, minhocas, formigas, lagartas, lesmas, diminuindo assim as pestes que dão cabo das plantas e da relva. E se por vezes aparecem cobras no nosso jardim, é com pena que não vemos mais, pois controlariam a seu modo o número de batráquios.

 

Como vivemos relativamente perto de dois cursos de água, não é raro encontrar sapos no bairro e, pelos vistos, alguns fixam residência na nossa propriedade.

 

Andávamos nós e eles! a pensar que isto era um refúgio natural. Um oásis de segurança no meio de uma cidade com quase um milhão de habitantes e é então que surgem as cobritas para os engolir.

 

Reconheça-se, porém, que os predadores também têm direito a viver. Comem outros animais para sobreviverem. O facto da cobra ter atravessado um canto do quintal, também prova que a teia da vida funciona neste microcosmo.

 

Gostamos de ter bicharada no jardim. Admiramos como conseguem adaptar-se a qualquer lugar onde acham alimento e esconderijo.

 

Há poucos anos, tivemos durante o verão um sapo adulto que adoptou uns arbustos como abrigo. Quando regávamos o jardim, ao fim da tarde, ele pulava de um lado para outro. Tornou-se o guarda-mor dum vaso com gerânios em cujo fundo se congregava uma multidão de insectos à cata de humidade. Era sua coutada de caça noturna. No entanto, como apareceu também desapareceu. Mudou de domicílio ou foi tragado por outra espécie.

 

Folgamos com a chegada da primavera. É um prazer voltar a sentir o sol quente e saber que uma investigadora da “Zoological Society” de Londres descobriu, por acaso, uma correlação absoluta entre o comportamento sexual dos sapos e a predição de sismos. Aconteceu dez dias antes do terremoto que destruiu a cidade de L’Aquila.

 

Quem diria que aqueles humildes sapinhos a que as cobras chamam um bife, têm o potencial de prever melhor estas tragédias do que tantos cientistas por esse mundo fora.

 

Ora bem, cada criatura tem a sua utilidade na Terra-Mãe.

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