SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:37

Em Louvor dos Piscos

 

Dedicamos o apontamento desta semana aos torrejanos mais jovens. Desde a meninice que também gostamos muito dos pássaros da terra onde nascemos, de observar os seus hábitos. São afáveis e francos. A milhares de quilómetros continuamos a estimá-los.

 

Talvez  por comodidade, temos limitado as observações aos que frequentam o jardim da casa ou que vivem na vizinhança. Temos igualmente prazer em admirá-los nas florestas e lagos da região, quando o tempo permite ir dar umas voltas de bicicleta.

 

Já vimos “birders” atravessarem pântanos debaixo de sol escaldante, carregando câmeras fotográficas por entre nuvens de melgas e mosquitos, ao mesmo tempo que, impávidos, olhavam pelos binóculos. Por certo, conseguem identificar na natureza espécies que nós apenas conhecemos dos catálogos da avifauna.

 

Convenhamos, porém, que estes estudiosos apresentam com frequência um ar sofredor e não é essa a nossa ideia de um passatempo. Não acreditamos que uma pessoa para se divertir tenha de fazer sacrifícios. Um paradoxo.

 

Os pássaros que, logo ao raiar da aurora, vêm tomar o pequeno almoço no comedouro do quintal sobrevivem o inverno por milagre. Por exemplo, os piscos, que fazem lembrar uma bola de algodão sobre dois palitos, parecem demasiado frágeis para viverem no Canadá.

 

É raro as temperaturas subirem acima de zero nesta época do ano e, de noite, o mercúrio do termómetro desce bastante. O que vale é que a selecção natural fez que alguns se tornassem peritos na retenção do calor corporal.

 

As penas constituem uma óptima isolação. Basta pensar nos edredões ou nos anoraques acolchoados. Nalguns dos nossos visitantes até aumenta em cerca de cinquenta por cento o volume da plumagem no o inverno.

 

Mesmo em países como Portugal, onde o clima é ameno, quando faz um pouco mais de frio logo se veste um pulôver de malha ou um casaco de lã de forma a minimizar as perdas de calor. A passarada faz exactamente o mesmo, pois quando a friagem aperta eles eriçam as penas e por este processo conseguem reter mais ar quente junto ao corpo.

 

Fazem então recordar os cartões de Natal, quando uma ave amplifica a plumagem para aumentar o valor do seu isolamento. É assim que os pequeníssimos piscos (“chicadees”) que vivem na nossa área obtêm mais 1,5 cm de protecção contra o ar frígido. No entanto, nas grandes noites de Janeiro e Fevereiro, necessitam de mais.

 

Os humanos tiritam de frio, batem os pés e dão saltinhos. Também os pássaros utilizam um método semelhante para não gelarem. Quando as temperaturas baixam demasiado, sobretudo durante a noite, os músculos pôem-se a tremer.

 

Ora todo este esforço para aquecer-se consome uma quantidade enorme de energia. As reservas de gordura esgotam-se com rapidez e, no caso dos piscos, este recurso chega aos limites em tais circunstâncias.

 

Não têm outro remédio senão alimentarem-se de imediato logo ao nascer do sol. É uma questão de vida ou de morte. Tão simples como isso.

 

Este ano, constata-se que o número de visitantes tem sido menor do que o do costume. Quiçá tenham morrido gelados ou viajado para o Sul. No entanto, é sempre com uma imensa alegria que os vemos a comer as sementes que lhes damos. Há manhãs em que somos forçados a acreditar em milagres. Um grande louvor para estes seres humildes que, apesar de todas as dificuldades, conseguem sobreviver noites de vento e gelo a -35º C.

 

Não é que eles saibam ou se importem! mas sentimo-nos privilegiados com as suas visitas. É uma presença que nos honra. Os seus vibrantes “chicka-di-di-dis” deixam o coração feliz.

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