SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:41

Robbie Burns antes do Entrudo

 

Ao consultar o calendário, reparámos que está para breve a chegada do Entrudo. Íamos pensar nalgum tema relacionado com ele, mas optámos por não o fazer. Com efeito, a cena nacional tem perdido tanto de austeridade e rigor que o Carnaval político pratica-se durante o ano inteiro. Não faltam farsas nem disfarces do actual governo. Nem sequer fingimentos e mascaradas diárias.

 

A festa do Entrudo já não é como no tempo dos nossos pais, nem sequer como ainda a conheceram muitos leitores. Nesses bons tempos, celebrava-se o Domingo Gordo e, na terça-feira seguinte, a população festejava o Dia do Entrudo.

 

Leigos e cristãos continuam a divertir-se neste dia. Algumas cidades até ficaram famosas pelo “Mardi Gras” (Nova Orleãs), “Fasching” (Colónia), “Carnaval” de Nice, para não mencionar o do Rio de Janeiro. Poucas semanas depois vem o São Patrício dos irlandeses, sejam eles residentes na Ilha Esmeralda ou membros das suas numerosas diásporas.

 

Pois bem, no dia 25 de Janeiro, antes dos desfiles carnavalescos ou da invasão verde de trevos irlandeses, temos outra data importante. Desta vez são os escoceses de todo o mundo que celebram o “Robbie Burns Day”. E amigos, colegas ou vizinhos são convidados para um golinho de “scotch”.

 

Robert Burns (1759-1796) é um dos grandes poetas da língua inglesa e um dos maiores vultos das letras escocesas do Século XVIII. Filho de camponeses, aos sete anos já trabalhava na agricultura e, segundo consta, começou cedo a ser adepto da bebida nacional.

 

Na opinião de Jorge de Sena, “Pela liberdade apaixonada, o erotismo desenfreado, a pungência dorida, a malícia viril, o domínio absoluto de uma linguagem que é menos dialectal do que fabricada por ele com provincianismos e inglês literário, a arte consumada dos seus versos fluentes e de uma musicalidade perfeita, Burns é um dos grandes líricos da poesia universal”. Tal como Walter Scott, foi um dos fermentos do romantismo do século XIX.

 

Por estas razões e talvez por também ter sido um divulgador do uísque típico das Highlands, todos os anos se comemora o seu nascimento. Como qualquer desculpa serve para aquecer as tripas, em 2010, celebra-se o 251º aniversário do nascimento do bardo escocês.

 

Tanto nos jantares de amigos como nas galas da alta sociedade, o centro da atenção vai para o “haggis”, uma iguaria preparada com coração, fígado, pulmões e outros miúdos de carneiro, picados com cebola, sebo, farinha de aveia, especiarias, tudo muito bem cozido no bucho (estômago) do animal.

 

Como manda a tradição, é o cozinheiro quem traz para a mesa o “haggis” acompanhado de música de gaita-de-foles. Os comensais devem levantar-se para saudar este símbolo da Escócia.  E, desde 1787, jamais se esquecem de recitar o poema “Address to a Haggis”, do qual respigamos as estrofes iniciais:

 

Fair full your honest, jolly face,
Great chieftain of the sausage race!
Above them all you take your place,
Stomach, tripe, or intestines:
Well are you worthy of a grace
As long as my arm.

 

(Em português: “Boa sorte a tua cara digna feliz, ///  Grande capitão dos pudins! /// Acima de todos assume teu posto, /// Tripas, miúdos ou pança: /// Bem mereces uma tão longa prece ///  
Como meu braço.”)

 

 Os convidados declamam outros versos de Robert Burns e fazem repetidos brindes com uísque. Quando o jantar se realiza no Reino Unido ou num país do Commonwealth o primeiro brinde é à Rainha. O serão prossegue com danças tradicionais do “céilidh” e termina com outra conhecida canção com letra deste poeta: “Auld Lang Syne” (que alguns portugueses associarão com a música da passagem de ano nos países anglo-saxónicos).

 

Horas de grande camaradagem e alegria. Quem tem um kilt aproveita para pôr as pernas ao léu e exibir as cores enxadrezadas do clã a que pertence. Uma ocasião ímpar para “raise a jar” (beber um copo) de “single malt”.

 

Visto que Torres Novas tem alguns apreciadores de “single malts” entre outros os companheiros João F. Cordeiro, Sousa Alves, Caranguejeiro e o Dr. Bento supomos que podiam inventar uma nova receita para “bucho recheado”, um óptimo pretexto para reunir os amigos.

 

Seria extravagante, mas como disse o filósofo Bertrand Russell: “Do not fear to be eccentric in opinion, because every opinion once eccentric is now accepted” (Não receiem ter uma opinião excêntrica, pois cada opinião que foi considerada excêntrica no passado é aceite no presente).

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