SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 04:20

Nova Iorque não é só Manhattan

 

A primeira vez que vimos uma referência aos Adirondacks foi ao ler “O Último dos Moicanos” de James Fenimore Cooper. Era leitura “obrigatória” para milhões de jovens da nossa geração da qual retiveram, pela vida fora, a descrição dos mistérios das florestas e dos costumes dos índios.

 

Terá sido no fim dos anos cinquenta. Passadas três décadas, colaborámos na publicação de uma etnografia dos povos ameríndios e, desde então, tivemos diversas oportunidades de apreciar a beleza desta região do Estado de Nova Iorque. Fica a umas 260 milhas a norte de Manhattan, a meio caminho de Montreal. Por conseguinte, não muito longe da fronteira com o Canadá.

 

Na fase da colecta de dados, consultámos Tehanetorens, um dos fundadores do museu tribal dos Mohawks em Onchiota. Um místico iroquês que “falava” com corvos, piscos, esquilos, coiotes e…ursos. Antes de uma das entrevistas, fomos encontrá-lo em diálogo xamanístico com um urso.

 

O Parque dos Adirondacks (criado em 1885) cobre quase três milhões de hectares, ou seja um quinto do estado. Tem para cima de dois mil e setecentos lagos e lagoas (Placid, Saranac, Raquette, Blue Mountain, Schroon, George, etc.), dois mil montes e montanhas ─ quarenta e três ultrapassam os 1.200 metros de altitude ─ dez mil milhas de rios e ribeiros, cinquenta espécies de animais e duzentas de pássaros.

 

A superfície assim preservada é superior à de dois outros famosos parques: Yosemite (na Califórnia) e Grand Canyon (no Arizona). De facto, a área protegida é maior do que o Vermont.

 

É um lugar de vilegiatura há mais de um século. Os leitores ainda se recordarão dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1980, em Lake Placid, que já tinha sido palco dos mesmos em 1932. Devem ser raros os locais no leste do continente norte-americano com tamanhas amenidades para desfrutar de um meio ambiente sem poluição.

 

Os Adirondacks, como as Green Mountains do Vermont, os Berkshires do Massachusetts, e os Poconos da Pennsilvânia, fazem parte dos Apalaches. É nestes que está situado o ponto mais elevado do Estado de Nova Iorque: o Monte Marcy (1.629 m).

 

Existem veredas bem marcadas para a ascensão até ao topo. E, a pé ou de bicicleta, vale a pena os amantes da natureza fazerem este percurso inesquecível, sobretudo no outono. O prémio é uma interminável paisagem de pinheiros, cedros, bétulas e abetos pintados de todos os matizes possíveis e imaginários.

 

É uma festa para os sentidos. A amplidão e a magnificência destes ermos geram nos habitantes das cidades um sentimento de vulnerabilidade. Convidam a pensar nas montanhas que se sucedem umas às outras. Fazem-nos sentir que poderíamos permanecer ali horas sem fim, embasbacados a olhar para a eternidade.

 

Cumes majestosos, vistas panorâmicas, lagos fabulosos, rios transparentes e uma fauna carismática são alguns dos encantos locais.

 

Sim, nesta reserva, ainda se pode respirar ar puro e beber água das fontes. Há muitos, muitos anos que a construção de novas habitações é proibída dentro do parque.

 

De facto, foi em 1894 que o governo de Nova Iorque inscreveu na constituição estadual a designação desta área como “forever wild” (Artigo 14). Porém, já existiam ao tempo da promulgação da lei alguns proprietários de terrenos privados.

 

Célebres magnatas da finança (Rockfellers, Vanderbilts, Durants) construiram enormes mansões e até consta que J.P. Morgan tinha à sua disposição uma locomotiva que podia largar a qualquer hora do dia ou da noite. Também não faltam escritores nem artistas que se tenham estabelecido por estas paragens, como por exemplo Mark Twain, Robert Louis Stevenson, Sylvia Plath, Joyce Carol Oates e os pintores Norman Rockwell e Winslow Homer.

 

A passagem dos anos não deixou muitas rugas na fisionomia de Lake Placid. A vila soube reinventar-se. É verdade que as vedetas de outrora ─ Gary Cooper era um “habitué” ─ já não passam aqui as férias, mas os apaixonados do campismo, da canoagem e da pesca desportiva ainda vêm em grande número. Lagos com trutas não faltam.

 

E tudo isto a uns 400 Km do centro de “New York City”!

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