SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 03:37

Peregrinações para além de Compostela

 

Há mais de quatro séculos, já Michel de Montaigne (1533-1592) encorajava os franceses a viajarem para poderem observar as diferenças entre povos e nações. Conhecendo os outros, acabamos por nos conhecer melhor a nós-mesmos. No entanto, há quem viaje por outras razões. Por vezes, um pouco nebulosas.

 

Por exemplo, digitámos no Google “viagens” junto com “Mário Soares” e logo apareceram 2.180.000 referências. De facto, o antigo presidente viajava bastante. Não sabemos se esses passeios aumentaram a sua autoconsciência ─ o “que sais-je?” do filósofo ─ , mas estamos certos que foram os cidadãos contribuintes que ficaram a entendê-lo melhor.

 

Após esta pesquisa na internet, descobrimos que, no seu “reinado”, visitou oficialmente 57 países e, quando comparado com qualquer outro governante durante os 99 anos de  república e quase oito séculos de monarquia, bateu todos os recordes no que toca a Espanha (24 visitas de Estado) e França (21). Acumulou quase um milhão de quilómetros, o se traduz em cerca de 22 voltas ao mundo!

 

Façanha maior que a do Magalhães – o navegador! – ou a do clássico Mentes Minto, perdão Fernão Mendes Pinto (1509-1583). Foi  preciso ter pedalada e acesso a “mucha plata!”. Riqueza não lhe falta, mas a pedalada agora é só de língua.

 

Uma dessas jornadas levou-o, com o acostumado séquito, às Seychelles. Um país de peso na balança comercial, de imprescindível importância estratégica para a nação. A tal ponto, que, no Largo do Rivas, os embaixadores andam em competição feroz para, em vez de se serem colocados em Madrid, Paris, Bruxelas ou Londres, se irem deliciar com esta cereja no bolo da carreira diplomática.

 

O  investimento foi elevado. Como outros, quiçá um segredo de Estado. Só dará frutos no futuro, pois, até ao presente, Portugal não tirou lucros, dividendos ou quaisquer juros da pipa de massa despendida nessa então arquipublicitada viagem.

 

Peregrinações com o dinheirito de um país que está na penúria. Presidentes, ministros, secretários de Estado, sub-secretários, adjuntos de sub-secretários, assessores dos adjuntos dos secretários do ministro, assistentes dos assessores do sub-secretário e autarcas de todo o quilate transformaram-se em viajantes. Tudo para glória da pátria, ou das terriolas e vilarejos lusitanos.

 

Rodas quadradas não andam para a frente. Apesar da verbosidade situacionista, a dívida nacional ultrapassou o Produto Interno Bruto. Como se pode ler no “Diário Económico” (24.06.2009): “A dívida externa do país já representa 101% do PIB. Ao mesmo tempo que o Estado e a banca devem mais, o país está a produzir menos. A economia portuguesa deve mais ao exterior do que aquilo que é capaz de produzir num ano”.

 

O passivo dalgumas câmaras levantou voo em direcção à estratosfera e existe quem se esqueça que, mais cedo ou mais tarde, os calotes têm de ser pagos. Que a liquidação dos juros é feita com dinheiro que devia ser utilizado nas despesas correntes da gestão municipal. Adivinhe-se quem vai pagar as favas? Com as eleições no papo, aparecerão em breve novos impostos, inventar-se-ão taxas e multas por tudo e às vezes por nada, reduzir-se-ão as reformas. E, vítimas do esmagamento financeiro, o Zé e a Maria eleitores não compreendem a necessidade das viaturas luxuosas, do número incontável de telemóveis, de cartões de crédito, de tanta viagem.

 

Como evitar esta escassez de transparência? Como proclamava o General Charles De Gaulle: “c’est un vaste programme”.

 

Ora bem, peregrino é sinónimo de excursionista e deriva do latim “per agrum” (pelos campos). Os romanos usavam a palavra “peregrinus”, da mesma forma que usamos estranho ou forasteiro. Um “peregrinus” era um doido que abandonava a segurança da comunidade andando através dos campos cultivados rumo ao “descampado”.

 

Para alguns leitores, talvez também seja uma loucura deixar a tranquilidade do lar. Caminhar à chuva e ao frio, semanas a fio, em direcção de uma igreja ou catedral com relíquias que, na sua maior parte, nem terão pertencido ao santo da devoção. E mesmo que sejam verdadeiras, o que é que muda na equação?

 

Porém, deve haver ali qualquer coisa de especial. Não era Compostela, logo depois de Jerusalém ou de Roma, o principal destino dos peregrinos cristãos da Idade Média? Apesar dos bandidos, ladrões, intempéries, lobos, etc., cerca de meio milhão de crentes seguiam anualmente, a pé ou a cavalo, para irem rezar ao apóstolo mata-mouros.

 

Em vez das abundantes “excursões” por seca e meca, ficaria mais económico ao erário público oferecer a estes “técnicos superiores” do Estado e das câmaras uns dias no Parador de los Reyes Católicos. Por muito hereges que alguns sejam, podiam aproveitar para abraçar o Santiago e mimarem-se com uns jantarinhos à galega.

 

Os nababos desta linhagem, andam sempre de cara enjoada, com um rictus a gozar quem lhes financia os esbanjamentos. Pensam ser os melhores em tudo, teimosos a apregoarem a “ética republicana”, porém, no fundo, são uns pantomineiros saloios e provincianos. Noutros países, noutras cidades, não é apenas uma questão de ética, é por imposição legal que têm de redigir relatórios que ficam à disponibilidade de quem os quiser ler… Como dizem os brasileiros: “cadê”?

 

Íamos continuar, todavia é melhor ficar por aqui.

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