SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 07:24

As Viagens dos Estorninhos

 

Fomos dar uma volta de bicicleta. A primeira luz da manhã realçava as silhuetas do arvoredo nas margens do rio. Na véspera, tínhamos ido ao National Arts Centre, pois seria imperdoável perder “Die Zauberflöte” (A Flauta Mágica). O jovem Joshua Hopkins estava em forma e retivemos algumas melodias de Papageno.

 

Sem saber porquê, associámos este famoso passarinheiro mozartiano com o antigo dono de uma moradia quase em frente da nossa, um professor convidado de Melbourne a quem os vizinhos alcunharam de “twitter” (chilreador) por esse académico australiano ser um especialista em avifauna. E por bandos de estorninhos terem o hábito de voar do nosso gigantesco ácer para o terreno dele. Por ser Outubro, não hesitámos em optar pelas migrações desta espécie, embora tivéssemos em mente outras viagens mais dispendiosas referidas, há cerca de um ano, por António Mário Lopes dos Santos (“O Almonda” 7.11.2008, p. 3). Pois bem, fiquemo-nos pela verdadeira passarada para evitar a do aviário eleitoral.

 

Falaremos de estorninhos (strurnus vulgaris). Assemelham-se aos tordos e, como os políticos, são extremamente gregários entre os da sua raça. Nesta época, não é raro observálos, aos milhares, em bandos compactos. É curioso, mas até Abril de 1890 não existiam fora da Europa. Foi nessa data que alguém libertou uma dezena em Nova Iorque. O responsável dessa proeza foi um “romântico” que queria ter na América todas as espécies de pássaros mencionadas nas obras de Shakespeare.

 

Deram-se tão bem que o seu número ultrapassa hoje as centenas de milhões. São de cor negra, sarapintada de pequenas malhas brancas e alimentam-se de insectos, vermes e frutos. Não temem a proximidade dos seres humanos e, por isso mesmo, encontram-se tanto em bosques abertos como nos parques e jardins dos meios urbanos. Quem não gosta de os ter por perto são os agricultores, visto que, consoante a época do ano, cerejas, uvas, ameixas e cereais desaparecem sem piedade. No inverno, os espertalhões correm para o sul ou, quando decidem ficar por aqui, alimentam-se nos comedouros que são colocados para esse efeito em milhares de quintais. Em contrapartida, nos meses mais quentes, libertam os campos de muitos insectos daninhos.

 

No fim do verão surgem em enormes bandos. Vêm vestidos de preto malhadinho. Mudaram de penas, deixando para trás o “look” de metal  iridescente, sobretudo em tons esverdeados.  O bico, de costume amarelo fazendo lembrar o dos melros, fica cinzento. Também parecem mais gordos. Uma realidade associada à necessidade de sobreviverem o longo inverno característico do clima local.

 

Iguais aos políticos após qualquer fiasco eleitoralista, os pássaros também têm de trocar de plumagem. Embora não mudem de casaca, os piscos, gaios ou pica-paus que abundam nas cercanias substituem pouco a pouco as penas velhas por novas. Em países com estações bastante diferentes umas das outras, até os humanos, mesmo os que detestam os cata-ventos do tacho, alteram a “plumagem”. De facto, a roupa nos armários junto aos halls de entrada varia. No inverno, estão repletos de sobretudos, agasalhos de lã, luvas, gorros, cachecois, etc. No verão: sandálias, sapatilhas e bonés de basebol.

 

Mas, é preciso estar de vigia. Por muito mansinho que piem, o “engenheiro” e os seus subordinados continuarão a ser passarões de múltiplas camuflagens. E não é devido à temperatura atmosférica.

 

Preferimos os estorninhos. Viajam sem gastar o dinheiro dos nossos impostos.

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