SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 06:46

“Vade retro”

 

Em cerca de uma semana, fizeram-se 10.000 downloads do livro “O Dossiê Sócrates”, de António Balbino Caldeira. Quem estiver interessado, pode escrever “Do Portugal Profundo” no google e seguir as instruções. É gratuito e tem centenas de páginas com episódios esclarecedores da falta de carácter desta tétrica personagem da história contemporânea portuguesa. Com documentos e deliberações de tribunais constitui um verdadeiro “case study”. Anotámos igualmente a necessidade de redigir umas linhas sobre a entrevista da mandatária para a juventude pelo partido do Primeiro-Ministro, em particular quando Carolina Patrocínio afirmou: “Detesto perder! Prefiro fazer batotota, a ter que perder!”. Quem ainda tinha dúvidas, ficou a saber.

 

Mas não serão esses os temas deste apontamento, devido à leitura da conclusão do recente “Pontapé de Saída”, de Joaquim Canais Rocha, a propósito dos maus resultados dos treinadores de futebol.  Escreveu este nosso amigo: “Assim fosse em tudo aquilo que acontece no nosso País e que os responsáveis fossem punidos, quando existem provas suficientes para o fazer. A falta de responsabilidade é uma doença grave da nossa sociedade”.

 

Pois bem, saltemos do desporto para a água. Ou mais precisamente para a confusão resultante da incompetência deste governo ao decretar o registo obrigatório de poços, furos artesianos, fossas sépticas, charcas, nascentes, açudes, represas e outras captações de recursos hídricos. Em princípio, a ideia não é absurda e até faz sentido. O que gostaríamos de evidenciar é a maneira odiosa como o governo tentou executar a lei.

 

Se fosse algo positivo para a imagem de Sócrates ou dos acólitos teriam-na divulgado nos programas de televisão, nos jornais e, porventura, em páginas inteiras de publicidade neste semanário. Um exemplo a acrescentar a tantos outros que provam a inevitabilidade de substituir os gestores, visto que, como já foi dito e repetimos:  “a falta de responsabilidade é uma doença grave da nossa sociedade”.

 

Em Maio, a televisão efectuou uma série de reportagens para demonstrar a idiotice deste processo. Ninguém sabia nada, mas a multa era no mínimo de 25.000 euros. Sim, coimas para cima de vinte e cinco mil euros. Cinco mil contos em moeda antiga! Onde pode chegar a falta de senso. Que descaramento: ameaçar desta forma os empobrecidos, marginalizados e humilhados habitantes deste Portugal anárquico.

 

Imagine-se que sondávamos de forma aleatória umas duzentas pessoas vítimas desta trapalhada. Na amostragem, incluiríamos diferentes níveis de escolaridade, uns mais idosos outros menos, homens e mulheres. Por certo que a quase totalidade reconheceria que esta intervenção do governo foi infeliz. Apenas gerou problemas e perdas de tempo a toda gente.

 

Ficámos chocados. Numa entrevista, um funcionário em Santarém desconhecia quais os quesitos do processo, não possuía formulários nem sabia responder às perguntas. A realizadora do programa ligou para diversos serviços públicos e os “esclarecimentos” obtidos eram hilariantes. “Vá à internet onde está tudo explicado”! O que a funcionária não sabia era que a jornalista já estava no site indicado e era tudo ficção.

 

Vem a propósito perguntar como é que pequenos agricultores de subsistência – na maioria velhotes a viverem em locais há muito esquecidos dos governantes, sem electricidade nem telefone e, na melhor das hipóteses, com a quarta classe –  podem cumprir estas imposições administrativas? Um insulto aos donos ou arrendatários de minúsculas courelas onde eles dependem do poço para sobreviver.

 

Também nos dirigimos à junta de freguesia. Tão-pouco conseguimos resposta cabal para as perguntas sobre a obrigatoriedade do referido registo. Sugeriram que fossemos ver no “www.arhtejo.pt” ou, se desejássemos, podíamos telefonar ou enviar um fax. Em Lisboa, era à Rua Braamcamp, número 7, que nos devíamos endereçar.

 

Pedimos a uma empregada cópias da papelada oficial e ela, com ar enjoado, mostrou-nos 13 folhas impressas nas duas faces, num conjunto de 26 páginas. Informou que seriam cobrados 10 cêntimos por cada fotocópia. Ao formulário com perguntas um pouco despropositadas, teríamos de juntar fotocópias do Bilhete de Identidade e do Cartão do Contribuinte, Caderneta Predial, Prova do Título da Propriedade, Certidão de Teor das Finanças, Planta à escala de 1:25000 com a localização no mapa militar ou algo parecido, Declaração da potência se o motor ultrapassar 5 cavalos, Relatório de peritagem técnica da captação, efectuada por um técnico com formação na área da hidrogeologia… etc, etc., etc.  Tudo conforme o Decreto-Lei Nº 226A / 2007 de 31 de Maio, do governo socialista.

 

Como estavam eleições à porta e os media se interessaram, o governo tirou da cartola uma solução bastante engenhosa. Decidiu camuflar a desorganização e as incoerências que o caracteriza, prolongando por um ano o prazo para entrega dos documentos. Em seguida, veio a desculpa habitual: foi tudo má interpretação da Lei. Cantilena que não apaga da memória a má impressão e o desperdício de energias para tentar resolver o problema. Razão tem a Confederação Nacional da Agricultura ao apelar no voto contra.

 

Não respeitam nem o tempo nem os nervos dos cidadãos.  Complicações completamente desnecessárias, uma vez que, em determinados casos, parece já não haver obrigação de registo.

 

O perdão político é um preceito muito bonito. Porém a autoflagelação deixou de estar na moda, embora alguns leitores sejam da opinião que se trata de uma virtude cristã.  Seja como for, há milhões de portugueses que estão fartos destas sucessivas provas de péssima gestão.

 

Ainda bem que existem alternativas nos próximos actos eleitorais: ao centro, à esquerda ou à direita. Tal como acontece aos treinadores de futebol, esta praga de ineptos tem de prestar contas. Por isso, o voto é importante. Chegou o momento de tratar o governo de Sócrates como o demo: vade retro satanás!

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