SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 13:15

O Cabo sem Tormentas

 

É onde todos os anos nos damos ao luxo de passar um período de “dolce farniente”.  O repouso anual no Cape Cod (Cabo do Bacalhau) é uma vilegiatura quase sagrada; uns dias “feriados” livremente consentidos antes da retomada do corre-corre quotidiano.

 

Gratifica-nos saber que não nos esperam aqui surpresas indesejáveis. Na arrecadação, as bicicletas apenas precisam de ar nos pneus que se esvaziaram. A ilha de Martha’s Vineyard permanece no mesmo local onde a deixámos em 2008. Nas esplanadas de Woods Hole, junto aos veleiros deste centro de investigação oceanográfica, perseveram em servir o melhor espadarte deste lado do Atlântico. O ar está pejado de iodo e a luminosidade de fim de estação, deixa o cérebro inundado de claridade difusa em matizes de aguarela. Tudo certinho, como deve de ser.

 

Estivemos a olhar as fotografias acumuladas noutras visitas. Dá gosto ver como pouco mudou em Falmouth. O “Village Green” e a “Main Street” com igrejas das principiais denominações protestantes, a Casa Katharine Lee Bates – a autora do hino “America the Beautiful” – , a sede da maçonaria identificada como qualquer associação humanitária, os correios, os cafés, as lojas de roupa, a farmácia, os bancos, os restaurantes, o armazém de ferragens e a biblioteca ao fundo do parque com um munumento aos antigos combatentes. Não devemos esquecer a vereda de placas com nomes dos mortos em diversas guerras. Um terço deles com apelidos portugueses, traço inextinguível no tempo e no espaço.

 

Desde o Século XVIII até à actualidade, que é visível a presença dos nossos compatriotas nos estados do Massachusetts e Rhode Island. Baleeiros e pescadores que arribaram nesta região antes da Guerra da Independência (1775-1783).

 

Não perguntem porquê, mas sempre pensámos que o “Cape” – como se diz em Boston! –  seria o cenário perfeito para a publicidade de uma marca de cerveja: mar resplandecente, sol em céu aberto, descontracção total e muita camaradagem. Pena é que, desde há dias, os “mirones” já não possam espiolhar Ted Kennedy na moradia de Hyannis. Em contrapartida, podem ter a felicidade de encontrar o Presidente Obama ou a Família Clinton em Oak Bluffs. Esta povoação da Vineyard tem bastante gente de ascendência açoriana, de tal forma que ainda em data recente existia um bairro denominado “Fayal” e o campo de basebol continua a chamar-se “Veira Park”.

 

Tal como cachorro que aprendeu a não andar a correr atrás de tantos ossos, ficamos na tranquilidade da sombra do toldo na praia de Menauhant, a desfrutar da brisa marítima e a observar os voos das gaivotas. De repente, interpuseram-se no ângulo de visão dois corvos marinhos que, a baixa altitude, seguiam na mesma direcção. Parecia que eram todos convidados para um lauto banquete, no local exacto onde as águas da lagoa costeira se baralham com as do mar.

 

Com o sol já em declive e após a descoberta de um navio a desaparecer na linha do horizonte, interrompemos a leitura do “El capitán Alatriste” – de Arturo Pérez-Reverte – e tentamos adivinhar qual será a mensagem do olhar destas aves? O que é que elas apregoam? Que cartas têm para jogar estes saltimbancos oceânicos?

 

Estamos na costa leste. Por conseguinte, o sol esconde-se no interior do continente e não no oceano como na orla ocidental de Portugal. Por isso vemos anoitecer gradualmente a ilha de Martha’a Vineyard, onde cada pôr do sol faz lembrar o contraste de sombras das fotografias de Bill Culbert.

 

Por de trás do bosque perto da casa onde nos alojamos fica o Great Pond, uma das muitas lagunas com barcos, pescadores e avifauna a partilharem luz e vivências de dias impecáveis.

 

Criamos a realidade ao observá-la e guardamo-la na memória. Nela nos refugiamos ao reiniciar a rotina das aulas, que, diga-se a quem não sabe, recomeçam no dia a seguir ao feriado da Festa do Trabalho (“Labour Day” – sempre na primeira segunda-feira de Setembro!).

 

Do jardim-escola à faculdade, é a abertura de mais um ano lectivo.

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