SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:09

O Sr. Joaquim Patrício não acreditaria

 

Num canto de armário, encontrámos um velho molho de cartas remetidas pelo Senhor Joaquim Domingos Patrício, comerciante honrado, republicano da velha guarda e resistente ao governo ditatorial. Tinha um armazém de solas e cabedais onde a Travessa do Tenente Valadim desemboca na Rua da Levada, portanto a meio caminho entre as casas da nossa avó e dos nossos pais. Conhecíamo-nos desde os tempos de criança, com bibe e caracóis.

 

Passámos quase duas horas a reler a correspondência trocada (fins da década de 1960 e anos setenta) entre dois “vizinhos” com idades e percursos de vida diferentes. Ligava-nos a convicção de que o pensamento nunca deve submeter-se a qualquer poder arbitrário ou ilegítimo, que um homem de carácter orienta-se pelos valores da liberdade, justiça, igualdade e solidariedade.

 

E é em memória desse homem bom, a quem há já bastantes anos deixámos de dar aquele abraço de respeitosa e sincera amizade, que vamos transcrever frases respigadas dessas missivas. Reflectem o que ele pensava: “Quanto à apatia política que se verifica em Portugal, é fácil adivinhar as causas”(18.06.1968); “É verdade que muita gente que pensa como eu, e, que como eu, de vez em quando não deixa de manifestar a sua opinião, também como eu está quase vencida; não convencida” (2.05.1969); “Os jornais falam na azáfama em que andam pela aproximação das eleições. Eleições? Victor, quase me dá vontade de rir…” (6.09.1969); “Onde se encontra gente que esteja tão satisfeita com o seu governo? E a prova é que quando foi da crise provocada pela doença do ditador ninguém tugiu nem mugiu” (28.01.1969); “Estás num grande país [EUA], meu caro amigo. Embora com os defeitos conhecidos, é e será sempre um grande país. O nosso é também um grande país, mas só na imprensa, na rádio e na televisão”(28.03.1971).

 

Isto era no tempo da outra senhora. Quando os meios de comunicação e os seus colaboradores serviam de filtro à realidade nacional, favoreciam a vulgaridade e criaram o servilismo amorfo dos portugueses.

 

Passada uma geração – com o 25 de Abril e outras mudanças de fachada – ainda é uma verdade fácil de verificar no consumo dos diferentes meios de comunicação. Ninguém duvida que no país reina uma total desorientação. A mediocridade conquistou Portugal, cada vez mais favorecida por politiqueiros oportunistas. Jamais vão aprender que a democracia não se resume ao voto de vez em quando. Ela exige um governo como deve de ser.

 

Hoje mesmo, o jornalista António Ribeiro Ferreira diz a propósito do novo estilo de controlo: “A Entidade Reguladora da Comunicação Social é um órgão bizarro que a maioria dos indígenas deste sítio manhoso, pobre, deprimido, cheio de larápios e cada vez mais mal frequentado desconhece” (cit. no “Público” 3.08.09).

 

Alguns partidos preferem portugueses dóceis, pois os cidadãos com consciência democrática requerem um elevado nível de diálogo, que, reconheça-se, não é atributo da maioria dos governantes nacionais ou autárquicos.

 

Pelo que vemos, ouvimos e lemos, o panorama geral é inquietante. Não faltam exemplos diários de que são protagonistas o “eng.” Sócrates-Madoff, ministros, secretários de estado e todo um escol de mentecaptos que mais parecem rinocerontes a saltitarem de nenúfar em nenúfar. Afundam-se no pântano que criaram. As câmaras também estão repletas desta fauna.

 

De recortes de jornais guardados numa gaveta, relemos duas manchetes ao acaso: “Políticos portugueses são marionetas ao serviço de interesses obscuros” (“Diário de Notícias”, 29.05.06), “Procurador-geral da República diz que a corrupção não é punida pelo povo” (“Diário de Notícias, 25.02.07). E nem sequer referimos o que presidentes de municípios e vereadores têm dito em períodos eleitorais. Tudo isto fica a retinir no ouvido do Zé Povinho.

 

Por exemplo a RTP, controlada sem rodeios pelo aparelho do estado, transformou-se numa máquina de propaganda ao serviço do partido no poder. Dia após dia, prova que não merece as centenas de milhões de euros que custa aos contribuintes.

 

Em pirotecnia e bling-bling são imbatíveis! O problema deles é que os eleitores já lhes conhecem os sofismas, as intenções e os métodos. O canto do cisne foi em Março, com a derrota nas eleições europeias. O efeito do ilusionismo acabou.

 

Fosse ele vivo, que nos diria o Sr. Joaquim Patrício de tanta trafulhice do governo actual?

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados