SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 15:35

Os “meninos da escola” na chamada às origens

 

Lemos algures que o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi companheiro de escola de Adolf Hitler, antes de partir para o exílio em Inglaterra. Do seu Tractatus, recordamos um aviso: “a solução para os problemas da vida é viver de maneira a suprimir esse problema” (sic). A sociedade portuguesa também rejeitou os judeus, mas há séculos que não os persegue em Torres Novas. No entanto, pelo menos em espírito, sempre houve quem quisesse escapar dos limites do espaço torrejano.

 

Até os mais pequenos. Nos anos cinquenta e sessenta, coleccionavam selos dos cinco continentes, moedas estrangeiras, emblemas, caixas de fósforos ou, então, cromos que se vendiam nas tabacarias ao Largo da Botica. Havia as Raças Humanas, as Bandeiras do Mundo e outras colecções no género. Trocavam os duplicados com parceiros de brincadeiras, alicerçando amizades que sobreviveram pela vida fora. Toda esta “malta” ouvia os relatos de futebol em “telefonias” de madeira e baquelite. Uns anitos mais tarde, apareceram e desapareceram os “transístores”. Barulhentos e pirosos. Logo depois, veio a televisão. Acendido o desejo de um reencontro com esse tempo da adolescência, subimos ao castelo para saudar o cedro da alcaidaria.

 

Porquê tanto amor por uma árvore? Pois bem, foi num dos seus ramos que os organizadores das então denominadas “Festas do Castelo” colocaram um receptor de televisão. Ali, com umas centenas de conterrâneos, vimos pela primeira vez uma transmissão televisiva. As árvores deste jardim lançaram raízes na história. Captam a seiva no húmus do antigo cemitério, onde, de1835 até cerca de 1940, foram sepultados os nossos antepassados. Tal como os sacerdotes budistas, devíamos inclinar-nos com reverência perante os troncos e as folhas destas plantas.

 

Mas voltemos ao lente de Cambridge, pois, mesmo sem o terem lido, os ex-alunos dos Professores Oliveira e Silva Paiva acataram o seu conselho para os dilemas existenciais. E, para cumprir essa tarefa, confiam no cabernet-sauvignon que o Zé Nicolau lhes serve nos almoços da praxe. Tanto o estágio em madeira de carvalho como o equilíbrio entre álcool, acidez e tanino, fizeram que a última colheita atingisse a perfeição. Justos e sérios, nenhum destes “meninos” questiona os atributos profilácticos desta pomada.

 

Este ano, a reunião foi a 24 de Maio, dia de chuva. E por molha ser sinónimo de constipação, compreende-se que os “atletas” não tardassem em busca de imunização contra a gripe. Pouco importa a estirpe viral. Qualquer uma delas: mexicana, porcina, asiática, aviária ou…almondina. À falta de “Tamiflu” da Roche, atacaram o Tintolflu dos Laboratórios Nicolau. A lauta feijoada serviu de catalisador nesta química de confortos e sabores. Que imaginação, a destes “maltêses”. Habitam numa estrela, com um pé na terra e o outro num paraíso perdido. Assistiram ao passar de uma era.  Foram testemunhas do naufrágio de uma civilização elegante, com gente cultivada. Era assim a Europa em que nasceram e foram criados.  Se necessário, todos saberiam dançar com borboletas.

 

Cantando e rindo, mantêm-se verticais. Vindo a propósito referir que o Jorge Pinheiro, o Bretes e o Prazeres Bento continuam com as gargantas em forma e a molhar bem a palavra. Também é de destacar a atribuição do troféu “Ratoeira d’Ouro” ao António Augusto Cotovio. Galardão merecido, uma vez que  premeia um dos colegas mais assíduos nestes encontros. Nobre na maneira de ser, discreto e de boa disposição, nunca perdeu aquele olhar claro, forte e móvil como o do pássaro de que tem o nome.

 

O Cotovio juntou-se aos eleitos: António Damásio, João da Guia, Mourão, Pinheiro, Luís Ribeiro, J. Canais Rocha, Formiga, Zé Nicolau, Soeiro, Eduardo Sá Pires, José Augusto Pedro, Prazeres Bento, Gutierrez e João Maria “Ministro”.

 

Os tempos mudaram e haverá quem sublinhe o anacronismo da fidelidade aos amigos e à terra natal. Parece uma contradição, numa época onde basta premir o comando da televisão para saltitar de canal em canal. Por tudo e por nada, há quem ande em mudança permanente: de emprego, de família, de convicções ou de partido. A estabilidade tornou-se suspeita e os mandões-hiperactivos inventam todos os dias novas trapalhices.

 

A “malta” protesta, aponta erros, suplica, por vezes até se exalta, porém a mediocridade circundante não tuge nem muge. Alguns vão desanimando. Descobriram que o muro que os aprisiona é mais duro do que a cabeça que teimam em usar. Todavia, há quem não ceda. Quem não esteja à venda por um prato de lentilhas ou um aperto de mão mentiroso. São portugueses da velha guarda. Não obstante a celeridade das mudanças, não esqueceram que dantes a fruta tinha lagartas, contudo sabia a fruta. Que o respeito pela palavra dada marcava o carácter de um homem. Hoje já não é assim. Enfim, nem todos tiveram a sorte de ser alunos dos Professores Oliveira e Silva Paiva. De mansinho ou à reguada, aprenderam a destrinçar o bem do mal.

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