SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:28

Manhattan na Alemanha

 

Os voos de longo curso convidam à leitura. Aproveitámos assim as sete horas de tédio entre Ottawa e Frankfurt para ler uma boa parte de “Alexsander Platz”. Uma desculpa para dedicar algum tempo a este calhamaço de Alfred Döblin. Para mais, tínhamos revisto recentemente o filme com o mesmo título que talvez seja a obra prima de Rainer Werner Fassbinder.

 

Estas linhas foram redigidas na Alemanha e servem de intróito ao tema de hoje.

 

Ainda há pouco mais de meio século, no período nazi, os membros do partido nacional socialista ocupavam todo o espaço social e político devido à disciplina de ferro e ao fanatismo. Já o Reichsführer SS Heinrich Himmler, um dos lacaios mais inteligentes ao serviço de Hitler, afirmava que “quem se metia com eles, comia”. “Gostavam de malhar” não só nos judeus, ciganos, comunistas e católicos, mas também em qualquer cidadão que não aceitasse a ideologia do partido. Os fins justificavam os meios: a satisfação do Führer e o controlo total do poder. O governo funcionava como uma seita que tinha por denominador comum a obediência ao chefe.

 

Como escreveu Boris Cyrulnik, o psiquiatra perito em totalitarismos: “o melhor agente dos regimes totalitários é o homem banal, que aceita a autoridade dos outros sem a questionar. Perfeitamente adaptado. Que quer ser sempre o melhor da classe”.

 

Uma mentalidade diferente surgiu após o desaparecimento da geração comprometida com o nacional-socialismo e, na actualidade, a Alemanha é, sem dúvida,  um dos países mais democráticos do mundo. A liberdade de expressão não tem limites. E isso verifica-se em todos os “länder”.

 

Frankfurt, sede do Banco Central Europeu e capital financeira da zona euro, é um bom exemplo de imponência económica e empresarial. Não lhe faltam arranha-céus “à la Manhattan”, nem quatrocentos bancos e gente com ar apressado. Tampouco carece de museus, feiras internacionais e uma oferta de eventos artísticos acima da média, sobretudo na Städtische Galerie e no Instituto das Artes.

 

Mesmo no centro, a Zeil é uma vasta zona pedonal com uma variedade de comércios. Um gigantesco “shopping center” a céu aberto, esteticamente muito agradável. Por perto, fica a Alte Opern (Opera Velha) que foi reconstruida depois da guerra e a emblemática Goethe Haus, onde viveu o grande poeta do Século XVIII. De sublinhar que, tal como outras urbes germânicas, também esta cidade possui um memorial do Holocausto: a Judengasse que retrata o passado dos guetos locais.

 

No campo dos “comes e bebes”, ganham os bebes. Como seria de esperar, reina a cerveja de alta qualidade, mas seria injusto menosprezar os rieslings do Reno e do Mosela.

 

No que toca a gastronomia, preferimos a dos povos mais a sul. Porém, para manter o estômago a funcionar, não recusamos um “Frankfurter Wurstchen”, uma espécie de salsicha defumada que é servida com “kartoffelnsalat” (salada de batatas) e se acompanha de “ebbelwoi”, uma espécie de vinho de maçã que é bastante refrescante.

 

Na aproximação à pista do aeroporto, vê-se do avião o centro da cidade e é impossível não identificar o grande edifício do Commerzbank, um dos prédios mais altos da Europa. Acrescente-se que este arranha-céus é famoso pelas inovações ecológicas, incluindo o sistema de iluminação natural.

 

Tanto o dinamismo como a tecnologia da nova Alemanha estão mais que patentes em Frankfurt. Sem esquecer a cultura.

 

Entrámos numa livraria e, numa mesa com livros a preço acessível, encontrámos “Der Vorleser” (O Leitor), de Bernhard Schlink. A versão fílmica é recente e o papel da guarda SS dum campo de concentração é interpretado por Kate Winslet. Com tanto talento que ganhou um Oscar.

 

Será melhor ficar por aqui. Dentro de dias, estaremos a manducar empanadas de polvo nos caminhos de Santiago.

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