SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 04:10

Campeões nas Reformas e noutros “Rendimentos”

 

Semana após semana, não se tem falado noutra coisa senão nas quantias astronómicas pagas aos gestores de empresas que mereciam destino idêntico ao dos dinossauros. Só sobrevivem porque os respectivos governos persistem em injectar-lhes dinheiro dos contribuintes.

 

Para o apontamento de hoje, fomos consultar uma lista nacional. Chegámos ao assunto porque o “Diário da Manhã” divulgou que um religioso ligado ao “jet set”, antigo administrador do Montepeio Geral e ex-Alto Comissário para Timor-Leste, usufruia de uma reforma de 104.301 euros (14 meses a cerca de 7.500). Ora um enorme número de Marias e Zés, com quarenta e tal anos a dar o corpo ao manifesto, mal “merecem” uns miseráveis 200 e poucos euros, enquanto as estatísticas revelam que 80 % dos políticos “eleitos” com os seus votos recebem mais de duas, em muitos casos três e quatro reformas.

 

Sarcasticamente, o jornalista Joaquim Fidalgo afirma que, “ao menos num capítulo ninguém nos bate, seja na Europa, nas Américas ou na Oceânia: nas políticas sociais de integração dos reformados”. Não são apenas os Soares, Guterres e Sampaios. O actual presidente da república é um reformado; os candidatos ao mesmo posto também o são; o ministro das finanças está em semelhante condição, como aliás o ex-ministro dessa pasta; o ministro das obras públicas é outro em situação igual, ou o presidente da Galp. É inútil mencionar presidentes de câmaras e de freguesias, vereadores e demais autarcas aposentados, pois esses são centenas senão milhares. Todos têm direito a tratar da vidinha. Mas, com base na referida notícia do “Diário da Manhã”, cumpre perguntar: que pensaria de tudo isto o “poverello” de Assis? Ou, para os laicos da loja, onde está a tão badalada ética republicana? Defendem ser tudo conforme a Lei (que é feita por eles!) . Sim, é tudo legal, porém de modo nenhum se importam que seja imoral.

 

Os governantes pagam bem a eles próprios. “Apenas” auferem 3.798 euros de salário-base, mais 10 % para despessas de representação. Dizem que é para evitar as tentações da corrupção. Numa ou noutra nação mais séria talvez, mas não é assim na Tretalândia lusitana. Toda a gente sabe. Causa admiração e pasmo que um cargo de deputado durante uma legislatura valha à saída um prémio de seis salários (20.694 euros). E se o senhor “dr.” ou “eng.” tiver durante dez anos o nome no parlamento, então recebe cerca de vinte salários: 68.980 euros.

 

Para mais, não esqueçamos que alguns também tiveram e continuam a ter direito a uma “subvenção vitalícia” de milhares de euros por mês e – pasme-se de novo! – acrescida da “pensãozinha”, aprovada antes de terem atingido os 60 anos. Estão neste caso Almeida Santos, Medeiros Ferreira, Manuela de Aguiar, Helena Roseta, Narana Coisoró, Leonor Beleza, etc, etc. Para a maioria dos portugueses a pedirem a Deus para os livrar de cair na pobreza, pois de ser ricos já se livraram há muito, algumas destas reformas sempre foram consideradas obscenas. No estado actual do país, onde o estatuto dos honestamente remediados está em vias de extinção, é mais que escandaloso pagarem montantes deste calibre a figurões que ziguezagueiam num imundo vai-e-vem entre os sectores público e privado.

 

Como era de prever, foi fácil encontrar uma listagem na internet. É dela que respigámos exemplos deveras impressionantes. Vejamos alguns destes contorcionismos: Armando Vara: ministro-adjunto do primeiro-ministro Vogal do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos Vice-Presidente do BCP; Paulo Teixeira Pinto: secretário de Estado da presidência do conselho de ministros Presidente do BCP; José de Oliveira e Costa: secretário de Estado dos assuntos fiscais Presidente do Banco Português de Negócios; Celeste Cardona: ministra da justiça Vogal do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos; João de Deus Pinheiro: ministro da educação e, mais tarde, dos negócios estrangeiros Vogal do Conselho de Administração do Banco Privado Português; Jorge Coelho, ex-ministro das obras públicas Presidente de Administração da Construtora Mota-Engil; António Mexia, ex-ministro das obras públicas Presidente da EDP.

 

Sublinhe-se que os portugueses ganham cerca de metade do que levam para casa os cidadãos dos outros países da zona euro. Em contrapartida, os gestores portugueses recebem em média mais 32 % do que os americanos, 55 % dos finlandeses, 56,5 % dos suecos e 22,5 % dos franceses (“Jornal de Notícias”, 24.10.2008). Milhões de compatriotas fartos de apertar o cinto e a viverem num país que está de tanga gostariam de saber a causa da profusão de nababos desta estirpe. Pois bem, fazem-na bonita graças aos vossos votos e, numa democracia, todos os cidadãos são responsáveis por estas indecências. Em particular, aqueles que votam neles.

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