SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:36

O mês mais cruel

 

Desculpas aos leitores pela ocupação deste espaço com uma lamechice primaveril. Mas não resistimos. Os gansos voam de novo sobre a cidade, desta vez orientados a norte, e estorninhos, rolas e melros da América (“robins”) apareceram de um momento para o outro para aproveitarem do que resta nos comedouros do jardim. São garantia de que tanto as tempestades de neve como o frio invernal passararam à história.

 

Porém, a apetecível desaparição do cinzento no firmamento não acompanhou o virar da folha no calendário. Os portugueses costumam dizer: “Abril das águas mil”. E quem estudou literatura inglesa, recordará os “Canterbury Tales / Contos de Cantuária” de Geoffrey Chaucer. Começam assim: “Quando o chuvoso mês de Abril cortou pela raiz a secura de Março e banhou cada veia no licor que tem o dom de produzir a flor…então sentem as pessoas vontade de peregrinar…o desejo de buscar plagas estranhas, com santuários longínquos”. Algo que os seres humanos partilham com outras criaturas de deus.

 

A atmosfera carregada e a seiva do ácer a correr fizeram que, como é hábito nesta altura do ano, fossemos reservar nais uma viagem à Europa. Regressam as aves migratórias, partimos nós. Pois bem, daqui a pouco, lá iremos para os não menos cinzentos céus germânicos. Mais tarde, os olhos terão a satisfação de se espraiarem pelas serras verdejantes do nordeste ibérico retocadas pelo amarelo das maias. Nos quintais das casas, talvez as bungavílias e as glicínias acrescentem uma pincelada vermelha aqui, lilás mais além.

 

No mau estado em que o mundo se encontra – e ninguém acredita que Portugal seja excepção – não existe mais do que uma ténue esperança dum futuro melhor. É essa linha de ideias que associamos com outros abris gravados na memória. Sirva de exemplo, o das estrofes do poema “The Waste Land / A Terra Devastada” (T.S. Eliot, 1888-1965), que fomos forçados a memorizar no liceu.

 

Com a idade, identificamo-nos melhor com a sua mensagem: “April is the cruellest month, breeding // Lilacs out of the dead land, mixing // Memory and desire, stirring // Dull roots with spring rain” (Abril é o mais cruel dos meses, gerando // lilases na terra morta, misturando // A memória e o desejo, atiçando // Raízes inertes com a chuva da primavera).

 

Em síntonia com as inquietudes que afligem tanta gente – sem saberem como vai ser o dia de amanhã, se vão ter emprego ou não, se o dinheiro vai dar para alimentar os filhos e pagar o empréstimo ao banco – reconhecemos o vazio deste tempo entre outros tempos: o do inverno que já não o é e o do verão que ainda não chegou. É um viver no fio da navalha: frio, quente, frio, quente. No desconhecimento total do compasso da música.

 

Há exactamente duas primaveras, passámos uns dias com amigos numa aldeia do Alto Minho. As noites eram frias, porém, logo após o nascer do sol, a temperatura ia subindo e, por volta das 11 horas, sentia-se sempre um calorzinho fortificante. Por montes e vales, tecidos em mantas de verde, ecoava o canto dos cucos em sonoridade intermitente. No ar esvoaçavam abelhas e borboletas. Nos muros, as lagartixas corriam em todas as direcções e, resignados, os lagartos aqueciam-se ao sol. Estávamos no equinócio.

 

Naquele quadro osmótico de renascimento da natureza e de paz de espírito, os toques dos sinos das freguesias situadas por trás de montes que se sucediam a outros montes não alteravam a tranquilidade geral. Escoavam-se por todos os azimutes até chegarem: por um lado à Galiza, por outro lado ao Atlântico.

 

A água da chuva foge sorrateiramente para as profundezas da terra. Transforma a geografia, entoando uma eterna canção. Natureza e homens. Também a partir deste mês surgirão os políticos sempre que o vento estiver de feição. Quando houver trovoada, então veremos eles fecharem-se em copas. Por toda a parte se respira um ar bafiento, causado pelas escavações para obras caseiras e nacionais. Cada cavadela uma minhoca. Por outras palavras: as eleições estão à porta.

 

Como seria desejável um outro tipo de primavera!

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