SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:56

Chipre: uma história complicada

O amigo José Ricardo Costa escreveu, num e-mail, uma frase sobre uma realidade que nos ultrapassa. Dizia-nos que podendo termos deixado Torres Novas, Torres Novas nunca nos deixará. Não temos o dom de filosofar como ele. Mesmo assim, ficámos a reflectir sobre o seu parecer.

Estávamos a alinhavar estas linhas, quando associámos uma visita a Limassol com uma reminiscência da juventude. Poucos torrejanos saberão que o marido da proprietária de um prédio da Rua Tenente Valadim, em frente da antiga mercearia do Sr. Sentieiro, era oficial da marinha mercante. No segundo andar morava o Sr. Júlio Bento cujo sobrinho, o Orlando, andava connosco na escola. Como ambos éramos filatelistas, o marinheiro dava-nos selos e falava-nos das suas viagens. Recordamos quando ele mencionou Limassol (Λεμεσός) e Famagusta (Gazimağusa), pois o navio onde trabalhava ia para estes portos da então colónia britânica. Na semana passada, fizemos uma associação com Zenão de Larnaca, hoje vem a talhe de foice a divisão da ilha. Com efeito, Limassol é o principal porto da República de Chipre e Famagusta fica agora na autoproclamada República Turca do Norte de Chipre.

A divisão foi criada em 1974, quando a Turquia enviou tropas para evitar que Chipre fosse integrado na Grécia, ignorando as tropas da ONU que já lá se encontravam a separar as duas comunidades. Em poucos meses, mais de um terço da população total foi deslocada devido aos combates: 180.000 cipriotas gregos fugiram para o sul e 45.000 cipriotas turcos para o norte.

A geografia redobra os problemas. Está numa zona determinada por conflitos religiosos, terrorismo e guerra. A Síria fica a uma centena de quilómetros, a Turquia a norte, o Líbano a leste e o Egipto e Israel a sul. Foi sempre assim. Aqui estiveram fenícios, assírios, egípcios, persas, romanos, bizantinos, cruzados, templários, normandos, genoveses, venezianos, etc.

Os otomanos, antepassados dos actuais cipriotas turcos, dominaram a ilha durante três séculos e em 1878 entregaram-na aos britânicos. Na década de 1950, os cipriotas gregos iniciaram uma luta de guerrilha para a “enosis” e, para evitar essa incorporação na Grécia, os britânicos deram-lhes a independência. O líder nacionalista era o célebre arcebispo Makarios que foi eleito presidente em 1960.

Logo após a proclamação da república, o país caiu na violência étnica. Em 1974, a ditadura dos coronéis então no poder em Atenas provocou um golpe de Estado contra o presidente Makarios ao mesmo tempo que a Turquia, temendo pela integração da ilha na Grécia, ocupou 37% do território. Em consequência, a ilha separou-se em duas entidades políticas.

Desde então, a maioria cipriota grega governa a parte sul, enquanto a minoria turca tem dirigido o Norte com a substancial ajuda económica e militar da Turquia.

Contudo, passemos a umas anotações mais positivas. Da varanda do nosso hotel, não muito longe de Limassol, via-se uma enorme baía com águas calmas que emitiam paz e tranquilidade no azul do Mediterrâneo. Podia-se caminhar pelo passeio marítimo e, quem desejasse, também podia aproveitar para relaxar nos cafés, bares e restaurantes. A marina era o lugar favorito para os donos dos iates e para os mirones que não os têm.

“Onde os deuses vão de férias” é o lema da Organização de Turismo Nacional. A Ilha de Afrodite, onde se diz que a deusa do amor veio pela primeira vez à Terra, situa-se na linha que separa a Europa do Médio Oriente. Numa perspectiva geográfica, Chipre faz parte da Ásia Menor mas, politicamente e culturalmente, os cipriotas consideram-se europeus. Desde a adesão à UE em 2004 e à introdução do euro quatro anos mais tarde, a República acercou-se ainda mais da Europa.

Há décadas que o governo fundou um importante centro “offshore” e assinou tratados de dupla tributação com várias nações, inclusive a Rússia. Isso significa, por exemplo, que os lucros de uma empresa aqui registada são tributados a taxas baixíssimas e não estão sujeitos de novo a pagar impostos noutro país.

Nas eleições presidenciais de 2008, dois meses após a entrada de Chipre no euro, foi eleito o secretário-geral do AKEL (Partido Comunista), Demetris Christofias. A posterior crise bancária foi-lhe atribuída por causa da sua falta de aptidão para gerir a nação e por não ter sabido colaborar com os ministros. Christofias, licenciado pelo Instituto de Ciências Sociais de Moscovo, foi considerado o pior presidente que ocupou o cargo. O país solicitou um resgate financeiro em 2012 e as negociações falharam quando Christofias recusou efectuar as indispensáveis reformas estruturais. Nas eleições parlamentares de 2016, os comunistas receberam apenas 90.204 votos ou seja 25.7% do total.

Chipre tem um grande passado, porém somos da opinião que vai ter bastantes desafios no futuro.

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